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Luiz Barrionuevo: viola, doutorado e luteria

Podcast Violino Didático

Um doutor de humor duvidoso entra no estúdio

Quando Jean de Oliveira apresentou Luiz Barrionuevo ao podcast, a definição foi direta: um dos caras de humor mais duvidoso que ele conhece. Os colegas em comum confirmam: talentoso, músico de alto nível e engraçado de um jeito difícil de explicar para quem ainda não teve o prazer.

Mas por trás da irreverência existe uma trajetória séria. Barrionuevo acabou de concluir o doutorado em música, com ênfase em performance de viola. Doutor Luiz Barrionuevo. Pode chamar assim.

A frase que a professora disse na defesa

No dia da defesa da tese, a banca deu os parabéns e a professora completou: “Agora a vida real vai começar. Se você achou isso difícil, prepare-se.”

A frase resume bem o momento. O mercado musical é competitivo em todas as frentes. E ser doutor, curiosamente, às vezes complica a contratação: algumas universidades brasileiras evitam perfis com especialização elevada porque o salário obrigatório pesa no orçamento. O título que deveria abrir portas, em certos contextos, fecha algumas.

A tese: o que ninguém padronizou na viola

O tema do doutorado surgiu de uma descoberta simples e perturbadora. Diferente do violino, que tem tamanhos razoavelmente estabelecidos, a viola não tem padrão. Nem de corpo, nem de corda vibrante, nem de proporções internas.

Barrionuevo contou que soube disso em uma conversa com um luthier vizinho. A revelação foi quase cômica: dois instrumentos do mesmo autor, feitos com o mesmo molde, podem apresentar medidas diferentes. Não existe um consenso que organize tudo isso.

Foi a sementinha, nas palavras dele. A tese se tornou um compêndio para mapear quais medidas e formatos da viola realmente interferem na performance, cruzando esses dados com as características físicas de cada instrumentista. Ombros largos, mãos grandes, braços longos: tudo isso muda o que é ergonomicamente ideal para cada músico.

A luteria que entrou pela porta da curiosidade

Antes de virar objeto de pesquisa acadêmica, a luteria já atraía Barrionuevo pelo lado afetivo. Desde criança, ele gostava de trabalhos manuais. Quando começou a estudar violino, ficou obcecado com a estética do instrumento.

A pergunta que não saía da cabeça era simples: como alguém transforma um pedaço de madeira numa coisa capaz de preencher um teatro para duas mil pessoas?

A oportunidade prática veio durante um curso na University of New Mexico. A professora de luteria perguntou o que ele queria construir. Ele pediu uma viola. Ela mostrou três modelos e perguntou sobre a madeira. Foi na hora de comparar as medidas que tudo explodiu: os instrumentos eram completamente diferentes entre si. Ali nasceu o projeto de doutorado.

Do violino para a viola: uma enrascada profissional

A transição de Barrionuevo para a viola não foi planejada. Foi uma emergência.

Seu professor, André Sanchez, adoeceu véspera de um cachê e ligou pedindo socorro. O serviço era de viola. Barrionuevo disse que topa e só depois entendeu a dimensão do problema: ele tocava violino, não viola. A leitura em clave de dó, a afinação diferente, o arco com comportamento distinto. Tudo novo.

Ele viajou para o interior, passou a tarde inteira estudando a parte, foi para o ensaio com a barriga fria. Uma colega de cello olhou para ele com aquela expressão de quem desconfia de tudo. Depois do concerto, no jantar, quem se aproximou foi o professor Sérgio Cascapera, trompetista do Teatro Municipal, conhecido por ser extremamente direto.

Cascapera disse o seguinte: parabéns, você é profissional de verdade. Chegou aqui sabendo que não tocava viola e fez o seu trabalho. Isso é profissionalismo.

Vindo de alguém assim, a frase teve peso. Foi ali que Barrionuevo começou a levar a viola mais a sério como instrumento principal.

Por que a viola fez mais sentido para o corpo dele

Há um detalhe físico que torna a história ainda mais coerente. Barrionuevo é alto, tem 1,86 m, ombros largos e mãos grandes. Para ele, o violino exige mais adaptação do que a viola. O instrumento maior encaixa melhor na sua estrutura.

Ele tocou os dois por muito tempo. Deu aulas no Guri, no polo do Brás e em Jundiaí, sempre cobrindo violino e viola como cordas agudas. Mas o violino foi ficando cada vez mais quieto no estojo.

O que Elisa Fukuda sempre repetia

Durante o período em que fez aulas com a violinista Elisa Fukuda, a mensagem era constante: toca viola, Luiz. Toca os dois, mas toca viola.

Fukuda tem uma relação afetiva com o instrumento: o pai dela foi violista do Teatro Municipal. Ela não seguiu esse caminho, mas sempre enxergou potencial em alunos que tinham o perfil certo. No caso de Barrionuevo, ela via.

Não foi o único a encorajar. O violinista Pedro Florense, que estava no mesmo cachê com o maestro Júlio Medaglia, também acabou se encantando pela viola naquela ocasião. A cena dos dois no mesmo evento, um já se rendendo ao instrumento e o outro começando a pensar nisso, ficou marcada.

O mercado de ajustes: uma ponte entre luteria e performance

Durante a conversa, Jean e Barrionuevo tocaram num ponto interessante sobre o mercado de serviços para instrumentos. O luthier Fábio Zanini tem um curso online de ajustes básicos: cavalete, alma, coisas do dia a dia. Alunos que concluíram esse curso estão prestando serviço para músicos de alto nível em São Paulo.

O raciocínio é direto. Os grandes luthiers não têm tempo para atender todo mundo. Quem aprendeu a fazer um cavalete direito, com olho calibrado e mão treinada, ocupa esse espaço. Um exemplo citado é André Santiago, ex-advogado que começou a fazer ajustes como hobby e transformou isso em profissão principal.

Barrionuevo fez uma comparação que faz sentido: aprender a fazer um ajuste é parecido com aprender a tocar. O primeiro cavalete fica torto, assim como o primeiro spicato. O olho vai se afinando com o tempo. Não tem atalho.

Humor duvidoso com cuidado real

Um detalhe apareceu de forma discreta na conversa. Barrionuevo é conhecido por zoar bastante, mas ele mesmo admitiu que toma cuidado para não machucar o coleguinha. Nunca foi de fazer piada com a viola como instrumento de segunda linha, mesmo tendo vindo do violino.

Isso diz algo sobre o tipo de pessoa que ele é. O humor existe, mas existe com consciência.


Ouça o episódio completo no YouTube: [LUIZ BARRIONUEVO - Podcast do Violino Didático #085](https://www.youtube.com/watch?v=LUIZ BARRIONUEVO - Podcast do Violino Didático #085)

Se a história de Barrionuevo mostrou alguma coisa, é que os caminhos na música raramente são em linha reta. Uma emergência vira vocação. Uma madeira despretenciosa vira objeto de doutorado. E um violinista alto demais para o próprio instrumento encontra, na viola, o lugar certo para as mãos grandes.

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