Luiz Dourado: violino, método Suzuki e raízes em Brasília
Luiz Dourado é um daqueles músicos que parecem ter nascido dentro da música, literalmente. Brasiliense, filho de um clarinetista e de uma pianista, cresceu num projeto de musicalização infantil que os próprios pais criaram na Universidade de Brasília. O violino chegou cedo, com seis anos, e nunca mais saiu da vida dele.
A conversa com Jean de Oliveira revelou um músico de múltiplas frentes: professor, violinista, violista e integrante de um quarteto de cordas em Brasília. Mas mais do que listar atividades, o que chamou atenção foi a profundidade das raízes que sustentam tudo isso.
Uma família que girou em torno da música
O pai de Luiz, o professor Ricardo Dourado Freire, é docente de clarinete na UnB e também atuou fortemente na área de educação musical infantil. Quando voltou dos Estados Unidos, onde trabalhou com nomes como Cindy Tager e o próprio Edwin Gordon, ele montou na universidade um projeto chamado Música para Crianças.
O projeto era inspirado nos modelos de prep school americanos, com foco em musicalização, percepção auditiva, imitação e voz. Com o tempo, foi crescendo e passou a incluir um curso de pré-instrumento. Os primeiros cobaias? Os próprios filhos de Ricardo.
Luiz e os dois irmãos cresceram dentro desse projeto. O irmão mais novo foi para o violoncelo. O mais velho, depois de anos no violão e no choro, chegou a tocar contrabaixo na orquestra da UnB, mas seguiu carreira como engenheiro mecânico. E Luiz foi para o violino e, mais tarde, para a viola também.
O violino veio antes do trompete
Luiz conta que, segundo a memória dele, queria tocar trompete. Mas seus pais garantem que ele pediu um violino. A versão oficial ficou com os pais.
A primeira professora foi Luisa Volpini, que iniciou o curso de violino dentro do projeto da UnB. As memórias desse período são marcadas por turminhas tocando juntas, pais envolvidos, energia especial. Um começo dos anos 2000 que Luiz descreve com carinho.
Foi nessa época também que o método Suzuki começou a entrar na vida da família. A mãe de Luiz entrou em contato com Shinobou Nobre, referência máxima do ensino Suzuki no Brasil, e isso abriu portas para formações, visitas e uma relação de longa data com a metodologia.
Shinobou Nobre e a raiz Suzuki no Brasil
Para quem não conhece, Shinobou Nobre é, nas palavras de Luiz, “basicamente a mãe de todos os professores Suzuki no Brasil”. Quem ensina pelo método, em algum momento passou pelos ensinamentos dela, seja como aluno ou como professor.
Luiz tem uma foto de criança com ela, em que aparece sendo corrigido na posição do arco. No encontro Suzuki realizado em Socorro (SP) no ano passado, o primeiro pós-pandemia, ele conseguiu replicar essa foto. O momento foi emocionante, segundo ele próprio.
Fred Gerlin e a decisão de ir para Porto Alegre
Se o início foi em Brasília, o aprofundamento veio com uma escolha clara: estudar com o professor Fred Gerlin na UFRGS. Luiz conheceu Fred ainda criança, num festival em Brasília chamado FIB, Festival de Inverno de Brasília. A conexão foi imediata.
Ao longo dos anos, os dois se reencontraram repetidamente no Festival Suzuki de Atibaia, organizado por Shinobou com alunos do Centro Suzuki de Campinas. Luiz conta que a turma de Brasília chegou a ir de ônibus para o festival, num convento, com não sabia quantos alunos. E Fred estava sempre lá.
Dessa convivência veio a certeza: era com Fred que ele queria estudar. Mais tarde, foi para Porto Alegre e se tornou aluno dele na UFRGS. Também estudou com a professora Hela Frank, com quem se reencontrou recentemente no Encontro Internacional de Violas.
De volta a Brasília, com o Quarteto Natan Schwartzman
Depois de um período fora, Luiz voltou para Brasília. Logo ao chegar, recebeu o convite para se juntar à equipe do Centro Suzuki de Brasília, ao lado de Rafael Egídio.
De lá surgiu também o Quarteto Natan Schwartzman, grupo que presta uma homenagem ao violinista e pedagogo Natan Schwartzman. O quarteto surgiu de um desejo que o próprio Natan teria expressado antes de falecer: que Rafael montasse um quarteto. A bênção, segundo Luiz, foi dada.
O quarteto toca no Centro Suzuki, na UnB e em outros espaços de Brasília, com um repertório trabalhado com cuidado e afeto.
Um dos centros Suzuki mais inspiradores do Brasil
Jean de Oliveira, que já conhece o trabalho de perto, não economizou no elogio. Para ele, o Centro Suzuki de Brasília está entre as maiores referências do Brasil no ensino de violino, pela qualidade do que publicam e pelo nível do trabalho que desenvolvem.
Luiz credita muito disso ao Rafael Rosano, responsável pela parte audiovisual e de redes sociais do centro. Mas é um esforço coletivo que se reflete na forma como o projeto é conduzido.
A conversa deixou claro que o que sustenta tudo isso não é só técnica ou método. É uma história de família, de comunidade, de professores que plantaram sementes e de um músico que decidiu, cedo, seguir o que sentia.
Ouça o episódio completo no YouTube: LUIZ DOURADO - Podcast do Violino Didático #088