Lyarah Live: funk no violino e uma trajetória fora do comum
Quando Lyarah Live diz que toca funk no violino, a reação imediata de muita gente é de espanto. Mas por trás dessa frase curta existe uma história longa: de tentativas frustradas, de tocar na rua por necessidade e de uma formação clássica conquistada a custo de muito esforço.
Jean de Oliveira a recebeu no Podcast do Violino Didático e logo de cara quis saber tudo. A conversa foi uma daquelas em que cada resposta abre uma nova pergunta, porque a trajetória de Lyarah é densa e cheia de reviravoltas.
Quem é Lyarah Live, afinal?
O nome artístico tem uma história curiosa. Seu nome verdadeiro é Stephany Luiz dos Santos Lopes Correia, um nome tão comprido que ela mesma brinca que a mãe não economizou na hora de escrever. Quando foi pensar em uma identidade artística, o nome Lyarah surgiu de um lugar improvável: o jogo online Ragnarok, onde ela usava esse pseudônimo há anos.
O sobrenome artístico “Live” veio depois, para completar. Mas o ponto central é que Lyarah é um personagem construído com intenção. Ela mesma explica que ser artista é assumir um personagem: uma versão de si mesma com maquiagem, com um jeito diferente de se apresentar ao mundo.
Ela ainda mencionou, com carinho, que existem três ou quatro crianças no Brasil que se chamam Lyarah por causa dela. E que sempre recebe fotos dos aniversários delas.
Do grupo social à rua, da rua à Municipal
A história com o violino começou em um projeto social ligado ao Pão de Açúcar. Lyarah entrou de paraquedas e foi parar direto em uma orquestra. Por muito tempo, ela foi, nas próprias palavras, o “patinho feio” do grupo: amava o que fazia, mas não sabia se ouvir tocar.
Essa falta de autoescuta, ela reconhece hoje, travou muito o seu desenvolvimento. Ninguém disse explicitamente que ela tocava mal por não se ouvir. E ela também não ouvia outros violinistas como referência, porque tinha aprendido que isso poderia fazer com que ela imitasse e perdesse a própria voz. Hoje, ela chama isso de “balela” e reforça que ouvir é fundamental para evoluir.
Chegou um momento em que seu professor em Santos virou para ela e disse: “O passarinho precisa voar.” Era hora de buscar professores em São Paulo. Ela passou a fazer aulas com Andreia Campos, que é spalla da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e que ela descreve com enorme admiração e carinho.
O problema era o dinheiro. As aulas eram de 15 em 15 dias porque era tudo que a família conseguia bancar, somado ao transporte de Santos até São Paulo. Até que os pais disseram que não conseguiriam mais ajudar.
A solução: tocar na rua
Para não parar de estudar, Lyarah foi para a rua. Tocava as músicas que todo mundo conhece, e as pessoas passavam, elogiavam e seguiam em frente. Até que ela começou a tocar músicas de novela. E a reação mudou.
Depois vieram as músicas da Anitta, que ela diz ser fã declarada. O público parava de verdade. A rua ensinou algo que a sala de aula não ensinaria da mesma forma: que o repertório conecta pessoas, e que o violino pode ser o veículo para qualquer música.
Enquanto tocava na rua e angariava alunos, Lyarah tentava, ano após ano, entrar na Escola Municipal de Música de São Paulo. O processo é seletivo e ela levou vários “nãos” antes de passar. Via amigos sendo aprovados enquanto ela ficava de fora. Chorava. Voltava para Santos. E voltava a tentar.
A Municipal e o caminho até a Unicamp
Quando finalmente entrou na Escola Municipal de Música, Lyarah mergulhou em um curso estruturado nos moldes do Conservatório de Paris: nove anos de formação, com teoria, orquestra, música de câmara, coral e mais, tudo gratuitamente. Foi exatamente o que ela precisava para se profissionalizar sem depender de recursos que não tinha.
Já dentro da Municipal, sua professora sugeriu que ela tentasse uma faculdade. Lyarah hesitou, mas acabou prestando para a Unicamp, que foi indicação da professora Márcia. Ela resistiu, não queria se mudar para Campinas. Prestou assim mesmo. Passou. E hoje, às vésperas de concluir o bacharelado em violino, diz que ama a faculdade e não se arrepende de nada.
Ela faz questão de um adendo importante: buscou a formação acadêmica por uma razão muito específica, que era se profissionalizar sem pagar por isso. Mas reforça que formação acadêmica não é o único caminho para ser um profissional do violino. A trajetória dela é a prova de que cada caso é um caso.
Funk no violino: profanação ou inovação?
A frase que abre a apresentação de Lyarah é direta: “Eu toco funk no violino.” Jean reagiu com o mesmo espanto que muita gente teria. E ela respondeu com bom humor e firmeza.
O violino é um pedaço de madeira com cordas. Quem decidiu o que pode ou não ser tocado nele? Lyarah não aceita essa limitação. A formação clássica que ela construiu com tanto esforço não é uma barreira entre ela e outros gêneros. É a base que permite que ela transite com segurança por terrenos que outros violinistas nem consideram pisar.
E é exatamente essa combinação, de técnica sólida com abertura para gêneros tidos como improváveis para o instrumento, que a torna uma artista singular no cenário brasileiro.
Uma trajetória que inspira
O que mais chama atenção na história de Lyarah Live é a ausência de um plano claro no começo. Ela sabia que queria viver de arte. Não sabia exatamente como. Foi a necessidade, combinada com a persistência e com professores que acreditaram nela, que foi desenhando o caminho.
Da rua de Santos ao palco, passando pela Municipal e pela Unicamp, Lyarah construiu uma carreira que mistura rigor técnico com versatilidade criativa. E ela continua, a poucos meses de se formar, afirmando que o violino pode ir a qualquer lugar onde houver música e disposição para tocá-lo.
Ouça o episódio completo no YouTube: LYARAH LIVE - Podcast do Violino Didático #026