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Marcelo Costa: violino, fé e o prazer de ensinar

Podcast Violino Didático

Marcelo Costa é um dos professores de iniciação ao violino mais respeitados que Jean de Oliveira conhece. Natural de Capinzal, no interior de Santa Catarina, ele percorreu um caminho cheio de mudanças, pausas e recomeços antes de se tornar a referência que é hoje. Atualmente mora em Ribeirão Preto, onde casou e segue ensinando violino há quase 22 anos.

A conversa com Jean revelou muito mais do que uma trajetória musical. Revelou a história de um adolescente que se encontrou em um instrumento e decidiu, com convicção rara, que era isso que queria para a vida.

A congregação como ponto de partida

Como muitos violinistas brasileiros, Marcelo deu seus primeiros passos na música dentro da Congregação Cristã. Ele tinha por volta de 10 anos quando viu um concerto de violino na TV pela primeira vez. A reação foi quase indiferente: não chamou muita atenção.

Dois anos depois, tudo mudou. Ao visitar uma Reunião de Mocidade com a mãe, ele viu adolescentes entrando com instrumentos, postura e dedicação. Aquela cena o tocou de um jeito que a TV não havia conseguido. Chegou em casa e disse à mãe: quero tocar violino.

A partir daí, começou os estudos na escolinha da Congregação, onde aprendeu teoria musical seguindo o método clássico: solfejo, clave de sol, clave de fá, os 98 estudos e mais. Jean, que também passou por algo parecido na infância, reconheceu na hora o percurso.

O truque da mão para ler partitura

Um dos momentos mais animados da conversa foi quando Marcelo explicou como aprendeu a identificar as notas no pentagrama. O método foi ensinado pelo irmão Pimenta, na Congregação, e Marcelo usa até hoje com seus alunos.

A ideia é simples: a mão tem cinco dedos, que representam as cinco linhas do pentagrama. Do mindinho ao polegar: mi, sol, si, ré, fá. Para memorizar, Marcelo criou um verso: “minha sola se refaz”. Mi de minha, sol de sola, si de se, ré de refaz, fá de faz. Em poucos minutos, qualquer aluno consegue localizar as notas nas linhas.

Para os espaços, a associação vem de outra forma: fá, dó, lá, mi. Marcelo conta que tinha um amigo chamado Ademir, apelidado de Mi. Então, “fala do mi” virou uma frase afetiva que ajudava a fixar os quatro espaços. Para quem prefere outra associação, ele sugere pensar em alguém sonâmbulo: sonâmbulo fala dormindo, e “fala dormindo” traz as notas fá, lá, mi na sequência.

Jean entrou na brincadeira, testou os truques ao vivo e confirmou: funciona.

Nove meses longe do violino e um retorno avassalador

Nem tudo foi linear. Na adolescência, Marcelo passou por uma fase de rebeldia, descobriu o rock e ficou nove meses sem tocar. A família se mudou para uma cidade onde não havia professor de violino disponível. O instrumento ficou parado.

Quando retornou à cidade onde havia começado, algo mudou dentro dele. Pegou o violino de novo com uma determinação diferente. Em três meses, fechou os 480 hinos do hinário da Congregação, passando também pelas claves de sol e fá. O professor era rigoroso, exigente com a afinação, e esse rigor ajudou Marcelo a evoluir rápido.

Em setembro ele retomou os estudos. Em dezembro já tocava nos cultos oficiais. Em fevereiro fez o teste de oficialização e passou. A velocidade da evolução surpreendeu a todos ao redor.

O hiperfoco de quem sabe o que quer

Marcelo foi honesto sobre a escola: era um dos piores alunos da sala, ao menos nas disciplinas que não tinham nada a ver com música. Antes de decidir ser violinista, figurava entre os melhores. Depois que tomou essa decisão, deixou de se importar com o restante.

Ele não romantiza essa postura, mas também não a esconde. Para ele, a partir do momento em que soube exatamente o que queria, tudo que não contribuía diretamente para seu crescimento como violinista simplesmente saiu do radar. Esse hiperfoco foi o que o fez chegar até onde chegou.

Como exemplo, citou Pitágoras: não sabe álgebra nem teoria geral, mas conhece bem o experimento da corda. Se divide a corda ao meio, a frequência dobra, e temos uma oitava. Divide ao meio de novo, temos uma quinta. Aprendeu isso porque tem a ver com música, com som, com violino.

Jean conectou essa experiência à de outros grandes músicos e atletas: pessoas com interesse muito específico tendem a concentrar energia com uma intensidade fora do comum. Não é receita para ninguém, mas é um padrão que aparece.

O que faz um bom professor de iniciação

Marcelo não chegou a ser professor por acidente. A trajetória dele foi construída com muita prática, muita observação e uma capacidade clara de transformar conceitos difíceis em algo leve e acessível. Os truques da mão, os versos para memorizar notas, as associações com nomes de amigos: tudo isso é pedagogia disfarçada de conversa.

É exatamente esse perfil que Jean reconhece nele como referência. Não é apenas alguém que toca bem. É alguém que sabe explicar, que entende como o aluno pensa e que encontra o caminho mais curto entre a confusão inicial e o prazer de tocar.

A mensagem que fica é simples: aprender violino pode ser mais leve do que parece. Com as ferramentas certas, mesmo leitura de partitura, muitas vezes vista como obstáculo, pode ser assimilada em dias.

Ouça o episódio completo no YouTube: MARCELO COSTA - Podcast do Violino Didático #008

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