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Márcio Demazo: música, educação e o caminho até a cozinha

Podcast Violino Didático

Márcio Demazo é o homem que Jean de Oliveira chama, sem hesitar, de “o homem mais importante da minha vida”. Foi ele o primeiro professor de violino de Jean, o responsável por plantar a semente que cresceu e virou o Violino Didático. Recebê-lo no estúdio para uma conversa foi, nas palavras do próprio Jean, motivo de sorriso de orelha a orelha.

Mas quem é Márcio Demazo hoje? A resposta surpreende quem o conhece apenas pelo lado musical. Além de toda uma trajetória como arte educador e professor, ele é consultor financeiro e sócio de um empório e restaurante em São Paulo. O hobby de cozinhar para a família e os amigos foi crescendo até virar negócio. Uma história que diz muito sobre quem ele é.

Da igreja ao conservatório de Guarulhos

Márcio vem de uma família protestante de Guarulhos, e a música entrou na sua vida pelo caminho mais comum para quem tem essa origem: a igreja. A mãe o levava, e o gosto foi crescendo naturalmente. Logo ele foi parar no Conservatório Municipal de Guarulhos, uma instituição que formou muita gente boa, mas que carregava um perfil bastante elitista para os padrões da época.

Ele chegou lá para estudar piano. Vinha da periferia de Guarulhos, e só o fato de frequentar aquele espaço já era uma ruptura. Naquele tempo, ter um piano em casa era como ter um carro: você entrava em consórcio para conseguir. Os métodos eram todos importados, comprados na Casa Manon da 24 de Maio, no centro de São Paulo. Sem internet, sem PDF, sem YouTube. Se você não tivesse o material, simplesmente não entrava.

A viola como instrumento do acaso

Dentro do conservatório, além do piano, era preciso estudar um instrumento secundário. Márcio olhou para as opções e descartou os de sopro com um argumento direto: não queria colocar a boca onde todo mundo coloca. Restou a viola, que ninguém disputava. E ali, quase por exclusão, começou a relação dele com os instrumentos de corda.

Ele ia ao conservatório todos os dias. Não tinha onde praticar em casa, então o conservatório era o lugar. Duas aulas de percepção por semana, canto coral, piano, viola. Uma rotina intensa que foi moldando sua formação.

A professora que mudou a direção

Uma figura central nessa história é a professora Roseli Glas, sua única professora de piano no conservatório e amiga até hoje. Foi ela quem percebeu que a questão financeira seria um fator decisivo para Márcio continuar ou desistir da música. E foi ela quem o incentivou a começar a dar aulas cedo, o que garantiu uma renda e manteve ele no caminho.

Quando chegou a hora de escolher a faculdade, foi também a professora Roseli quem deu o conselho que mudou os rumos: não faça piano, disse ela. O campo de trabalho é limitado. Ou você segue como correpetidor ou persegue o sonho de concertista, mas os dois caminhos são estreitos. Márcio ouviu e foi para a Faculdade Santa Marcelina, uma das mais antigas em cursos de música no Brasil.

Conservatório: o lugar que conserva o quê?

Um dos momentos mais ricos da conversa foi quando Márcio falou sobre o ambiente rígido do conservatório na década de 1980. Lá, música popular era proibida. Havia uma separação absoluta entre o erudito e o popular, com professores que encaravam qualquer mistura como uma espécie de heresia.

Ele lembrou de cenas absurdas: o diretor chegando e fechando o piano na mão de alunos que ousavam tocar algo fora do repertório erudito. Márcio chamou isso, sem cerimônia, de mutilação artística e mutilação criativa. Para ele, essa fronteira nunca fez sentido histórico. O Barroco, o Classicismo, o Renascimento: todos esses períodos foram marcados pela integração entre o popular e o erudito. A separação foi uma construção artificial, mantida por quem tinha interesse em preservar hierarquias.

Ele chegou a lembrar de uma discussão sobre a própria etimologia da palavra: conservatório é o lugar que conserva. E a pergunta que fica é: conserva o quê, exatamente?

Sala São Paulo e a virada cultural

Márcio apontou a implementação da Sala São Paulo, a partir da segunda metade dos anos 1990, como um divisor de águas para a música erudita em São Paulo e para os músicos que dependiam dessa carreira. Antes disso, os músicos da Orquestra Sinfônica do Estado tocavam em condições precárias, com pouco reconhecimento e remuneração baixa. A criação de equipamentos culturais de qualidade mudou esse cenário.

Na esteira disso, as universidades foram abrindo cursos de música popular. Na Santa Marcelina, Márcio conviveu na mesma turma com André Matos e Rafael Bittencourt, que em 1993 ainda eram estudantes como ele antes de partirem para a Alemanha gravar o primeiro disco do Angra. Uma prova, na visão dele, de que não existe fronteira real entre linguagens musicais quando o ambiente é aberto.

Arte educação e o palco que virou chão batido

Depois da faculdade e de anos dando aula, Márcio desenvolveu um longo trabalho como arte educador em projetos socioculturais. Ele descreveu essa fase com uma imagem bonita: ele havia planejado reger a Filarmônica de Berlim, mas o destino colocou um palco diferente na frente dele. O chão batido da sala de aula. E foi lá que as oportunidades reais apareceram.

Essa trajetória moldou o professor que Jean de Oliveira teve. E moldou, por consequência, o Violino Didático que existe hoje.

O legado de quem planta

Ouvir Márcio Demazo falar é entender de onde vem a filosofia do Violino Didático. A ideia de que a música é para todos, que barreiras financeiras e sociais não deveriam impedir ninguém de aprender, que o ambiente de ensino precisa ser aberto e humano: tudo isso ressoa na conversa com ele.

Jean cresceu vendo esse exemplo. E quando hoje diz que todo mundo é capaz de tocar violino, está ecoando, de alguma forma, o que aprendeu com o primeiro professor que acreditou nele.

Ouça o episódio completo no YouTube: MARCIO DEMAZO - Podcast do Violino Didático #036

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