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Marcos de Lazzari: violino, método e composição

Podcast Violino Didático

Marcos de Lazzari é o tipo de músico que resolve um problema criando algo novo. Quando seus alunos precisavam de material, ele escrevia. Quando a orquestra precisava de um arranjo para o dia seguinte, ele fazia. Essa disposição prática e criativa está no centro de tudo que ele construiu ao longo da carreira, e foi exatamente sobre isso que ele conversou com Jean de Oliveira neste encontro especial.

Professor, compositor e violinista radicado em Curitiba, Marcos de Lazzari é o criador do método Violino em Ação, uma coleção de peças e estudos pensada para tornar o aprendizado do instrumento mais musical e prazeroso desde o primeiro dia.

O método que nasceu da sala de aula

A ideia do Violino em Ação não veio de uma tese acadêmica. Veio da observação direta dos alunos. Marcos percebeu que faltava material que fosse ao mesmo tempo tecnicamente progressivo e musicalmente interessante, e decidiu criar esse material ele mesmo.

O livro Um do método trabalha o violinista na primeira posição, em várias tonalidades, com harmonias bem elaboradas. A parte de piano também foi cuidadosamente escrita para que o aluno tenha prazer em estudar, tocando músicas que soam de verdade, não apenas exercícios áridos.

Jean mencionou uma comparação com o método Czheck, clássico no ensino do violino. Marcos foi direto: o Czheck é maravilhoso quando bem aplicado, mas foi pensado de forma puramente técnica. A maioria dos estudos não é bonita de tocar. O Violino em Ação nasceu justamente para preencher essa lacuna.

Cinco estudos que funcionam como peças de bis

Além do método, Marcos está finalizando uma série de cinco estudos em primeira posição. Jean pediu que ele tocasse um trecho ao vivo, e a conversa ganhou um momento especial: Marcos pegou o arco e tocou parte do estudo batizado de Ricochet.

O estudo trabalha exatamente o que o nome sugere: o coup d’archet do ricochet, de forma organizada e progressiva. Mas o que chama atenção é que ele soa bem. Soa como uma peça, não como uma lição de técnica.

Marcus explicou que pensou nesses estudos também como opções para o final de um recital, quando o violinista precisa de uma peça curta para tocar como bis. Um aluno que acabou de apresentar uma sonata de Beethoven pode encerrar com um desses estudos sem nenhum constrangimento.

Os outros estudos da série têm nomes igualmente expressivos: Ressonâncias, que prepara o aluno para trabalhar com ressonância de forma aplicada, quase como uma introdução às partitas de Bach; e Tango, que ele também tocou um trecho ao vivo, mostrando o caráter rítmico e dançante da peça, tudo dentro da primeira posição.

A igreja como primeira escola de arranjo

Quando Jean perguntou de onde vinha essa veia de compositor e arranjador, Marcos foi imediato: veio da igreja. Ele assumiu o coral da comunidade muito cedo e ficou à frente dele por 16 anos. Foi lá que aprendeu a escrever arranjos vocais, a pensar em naipes, a trabalhar partitura de verdade.

Por necessidade do coral, também aprendeu a tocar piano. E aprender piano o levou a escrever para piano. Tudo de forma prática, sem aula formal de arranjo ou composição.

Essa formação não convencional deixou marcas profundas na forma como ele ensina e compõe. A teoria veio depois, na graduação. Mas a intuição musical e o hábito de criar foram forjados ali, na prática semanal da música litúrgica.

Da PUC Paraná ao primeiro arranjo orquestral

Marcus entrou na PUC Paraná para tocar na orquestra de câmara da universidade. Com o tempo, foi convidado a coordenar o conjunto e depois passou a dar aulas no curso de licenciatura em música, onde ficou por dez anos.

Foi lá que aconteceu um episódio que ele conta com bom humor: na véspera de um concerto, o arranjador havia entregado apenas nove dos dez arranjos necessários. O coordenador chegou para Marcos e disse que precisava de mais um para o dia seguinte. Marcos nunca havia feito um arranjo para orquestra. Fez assim mesmo.

Anos depois, na pandemia, ele encontrou o vídeo desse concerto. O arranjo estava bom. Foi o ponto de partida para uma prática que nunca mais parou.

Na PUC, Marcos também foi responsável por uma disciplina que reunia percepção, improvisação, teoria, contraponto e harmonia, todas em um bloco integrado. Uma formação abrangente que reforçou ainda mais sua visão holística sobre música.

O começo com o violino e a professora Consuelo

O violino entrou na vida de Marcos de Lazzari pela porta da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, a EMBAP. Sua mãe decidiu que ele e a irmã estudariam música, e aos 5 anos ele fez a prova de admissão: bater palma igual ao professor e cantar. Passou.

O sistema da escola tinha um preparatório de quatro anos de musicalização. Só no último ano o aluno escolhia o instrumento. Marcos queria flauta transversal, como tantos outros que Jean já entrevistou e que acabaram no violino. Foi a mãe quem sugeriu o violino, e a escolha ficou.

Sua primeira professora foi Consuelo, violinista da Orquestra Sinfônica do Paraná. Logo depois, passou para o professor Walter Herner, com quem estudou até o final da graduação. Por meio de Herner, Marcos também teve contato regular com o professor Paulo Bosísio, referência nacional no ensino do violino, que visitava Curitiba periodicamente e no Festival de Juiz de Fora.

A aventura de quase não chegar ao festival

Falando em Juiz de Fora, Marcos contou uma história que mistura determinação e muita sorte. Ele queria muito ir ao festival, mas não tinha dinheiro. Pediu apoio ao projeto social onde trabalhava como professor, conseguiu um valor, alugou uma casa como se fosse um Airbnb antes do Airbnb existir, e foi de carro com dois amigos.

Sem GPS e com o notebook descarregado no meio do caminho, eles seguiram de memória, olhando as placas. Marcos deu uma indicação errada, o carro entrou numa estrada de terra, chovendo, sem grade-rio, subindo morros com lama de um lado e precipício do outro.

Em determinado momento, o carro começou a deslizar em direção ao barranco. As nuvens pareciam estar abaixo deles. O que os salvou foi um pequeno monte de barro na borda da estrada, que segurou o veículo. Eles chegaram ao festival. O carro, amassado. A história, inesquecível.

Um músico que constrói enquanto ensina

O que une todas as histórias de Marcos de Lazzari é uma atitude: ele não espera as condições ideais. Escreveu o método porque os alunos precisavam. Fez o arranjo porque a orquestra precisava. Foi ao festival porque queria aprender.

Essa postura é justamente o que torna sua trajetória tão inspiradora para qualquer violinista, seja iniciante ou avançado. O Violino em Ação não é apenas um livro: é a síntese de alguém que passou décadas pensando em como tornar o violino mais acessível e mais bonito ao mesmo tempo.

Ouça o episódio completo no YouTube: MARCOS DE LAZZARI - Podcast do Violino Didático #012

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