Ir para o conteúdo

Marcos Osaki: advogado, violinista e professor apaixonado

Podcast Violino Didático

Marcos Osaki é o tipo de pessoa que faz a gente questionar quantas horas tem um dia. Advogado tributarista com mestrado e doutorado em direito, professor de violino pelo método Suzuki, recém-formado em bacharelado de violino pela USP, e agora também professor de musicalização para bebês desde a gestação. Jean de Oliveira não estava exagerando quando o apresentou como o “Batman do violino”: durante o dia, combate as injustiças como advogado; nas outras horas, transforma vidas com a música.

A conversa com Jean foi daquelas que rendem tanto que a equipe do podcast precisou pedir uma pausa para lembrar ao ouvinte de dar o joinha. E não era pra menos: Osaki trouxe reflexões profundas sobre aprendizado, autonomia e o que significa, de verdade, ser violinista.

Do escritório de advocacia à sala de aula de música

Osaki se formou em direito entre 1991 e 1995, pagando a faculdade dando aulas de violino. O instrumento e o direito sempre caminharam juntos na sua vida, mas foi à medida que seus alunos avançavam de nível que ele sentiu a necessidade de aprofundar sua formação musical. Em 2019, prestou vestibular e entrou no curso de bacharelado em violino da USP. Em dezembro de 2023, colou grau.

Não é uma história de abandono de carreira nem de escolha entre duas paixões. É uma história de integração. Osaki administra um escritório com uma equipe de advogados e contadores, mantém a prática jurídica na área tributária e ainda encontra tempo para ensinar violino, dar aulas para bebês e desenvolver novos projetos pedagógicos.

Aulas de música desde a barriga da mãe

Um dos assuntos que mais surpreendeu na conversa foi o trabalho com bebês, da gestação aos três anos de idade. Osaki explicou que, a partir do quarto mês de gestação, o bebê já tem audição formada. Nas aulas, quem participa ativamente é a mãe: ela canta, faz os movimentos, marca o ritmo e escuta as músicas. O bebê absorve tudo de forma passiva, mas o impacto é real.

O professor contou que os pais relatam crianças começando a repetir palavras em inglês aprendidas nas aulas, às vezes muito tempo depois de tê-las ouvido, em casa ou no carro. “A criança tá observando tudo”, disse Osaki. Para ilustrar o poder desse aprendizado precoce, ele mencionou um vídeo mostrado pela professora Rafaela Piratello, com um bebê de menos de um ano afinando a voz na altura exata de uma peça musical. A reação de Jean foi imediata: “Não é possível.”

O ensino coletivo que transformou a turma de adolescentes

Depois de fazer o curso Practicum do método Suzuki em janeiro de 2020, ao lado de Jean e outros professores, Osaki tomou uma decisão radical: transformou todas as suas turmas em aulas coletivas. Não existe mais aula individual na sua escola. Do básico ao nível avançado, tudo em grupo.

O resultado mais visível apareceu nos adolescentes. Segundo Osaki, o ensino coletivo mudou completamente a significação que eles dão à música. O adolescente precisa de comunidade, precisa ver outras pessoas enfrentando as mesmas dificuldades. No grupo, acontecem dois movimentos complementares: quando alguém toca com facilidade, os outros se sentem desafiados a também conseguir. Quando alguém erra ou trava, percebe que não está sozinho. “Você se identifica com o outro: estamos no mesmo barco”, resumiu o professor.

O TCC que virou filosofia de ensino

O trabalho de conclusão de curso de Osaki na USP tinha um título instigante: “Como se tornar um violinista pleno”. O tema surgiu de uma inquietação que ele trouxe de um curso do livro 10 do método Suzuki, em Buenos Aires: como um aluno desenvolve autonomia a ponto de, um dia, não depender mais de um professor para evoluir?

O “pleno” do título não significa estar pronto ou perfeito. Significa saber reconhecer onde estão as próprias lacunas, que tipo de ajuda buscar e como agir diante de um problema técnico sem esperar que alguém aponte o caminho. Uma das professoras da banca resumiu bem: é o sujeito estético, sempre em movimento, sempre se aperfeiçoando.

Para construir o argumento, Osaki se apoiou em dois livros do pedagogo Antoni Zabala e da pesquisadora Laia Arnau: “Como ensinar e aprender competências” e “Métodos para ensinar competências”. Esses autores propõem quatro competências gerais para o desenvolvimento pleno: saber ser, saber conhecer, saber fazer e saber conviver.

A primeira lei do aprendizado: observar e imitar

Das quatro competências, Osaki destacou o “saber ser” como a mais fascinante. Ele perguntou: o que faz uma criança de dez anos tocar com aquele jeito inconfundível de violinista? Não é talento inato. É uma soma de atitudes e comportamentos que ela foi absorvendo, muitas vezes por imitação.

Para Osaki, a capacidade de observar e imitar é o ponto de partida de todo aprendizado musical. Ele chama isso de “a primeira lei do aprendizado”. Imitar um grande mestre não significa copiar seus gestos mecanicamente: significa absorver a atitude, o comprometimento, as escolhas que estão por trás da execução. “Você não imita só o gesto, você imita o que está por trás da pessoa”, explicou.

E essa imitação tem um limite saudável: você é você, o mestre é o mestre. O resultado da imitação sempre vai ser filtrado pela sua própria identidade.

Sair do pique para procurar as notas

Outro momento rico da conversa foi quando Osaki usou a brincadeira de esconde-esconde para explicar o processo de tocar de ouvido. Muita gente conhece uma música, consegue cantá-la, mas não pega o violino para ir atrás das notas. Fica no pique, contando, sem sair para procurar.

Tocar de ouvido exige exatamente isso: sair do pique, testar uma corda, errar, tentar outro dedo, errar de novo e continuar procurando. O erro não é fracasso, é parte do método. “Você vai procurar atrás de uma moita e de repente não vai estar lá”, disse Osaki. “Tenta outro dedo.”

A imagem é simples, mas poderosa. E resume bem a filosofia pedagógica que atravessa toda a trajetória de Marcos Osaki: aprender é um processo ativo, cheio de tentativas, que exige coragem para sair do lugar seguro e ir atrás do que ainda não se sabe.

Ouça o episódio completo no YouTube: MARCOS OSAKI - Podcast do Violino Didático #048

Continue lendo