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Marcos Santos: violino, doutorado e carreira musical

Podcast Violino Didático

Um convidado com som de outro mundo

Quando Jean de Oliveira descreve o som de alguém como “um dos mais bonitos que já ouvi no meu violino”, dá para sentir o peso da afirmação. Foi exatamente assim que ele recebeu o Professor Dr. Marcos Santos no Podcast do Violino Didático, episódio 87.

Marcos acordou cedo, saiu de Campos Elísios às 7 da manhã e chegou a Cotia em cerca de 40 minutos. Uma viagem curta para uma conversa longa, honesta e cheia de aprendizados.

Quem é Marcos Santos

Marcos é professor de violino e música de câmara na USP de Ribeirão Preto. Além da docência, integra um trio com André Miquelet e Gustavo Costa, também professores da universidade.

É também cofundador da Brava Academia de Música, em Bauru, escola que ajudou a criar em 2016 com a colega Paula Martins. Após assumir as atividades na USP, passou a atuar como sócio, mantendo o vínculo com o projeto que ajudou a construir.

De Bauru para o mundo: uma história de projeto social

Tudo começou em Bauru, cidade natal de Marcos, conhecida popularmente pelo famoso lanche. Mas, como ele mesmo esclareceu com bom humor, o Bauru original é bem diferente do que a maioria conhece: pão francês, rosbife, quatro queijos e picles. Nada de presunto e queijo no salgadinho.

Foi nessa cidade que Marcos teve seu primeiro contato com a música. Seu pai, sem ser músico, sempre gostou muito de música e colocou o filho em uma banda marcial. Marcos começou no trompete por volta dos 7 ou 8 anos.

O violino veio mais tarde, aos 14 ou 15 anos, quando surgiu a oportunidade em um projeto social. E foi lá que encontrou o professor Rogers, figura que marcou profundamente sua trajetória. Rogers acreditou no potencial de Marcos desde o início, e foi pessoalmente com ele até o Conservatório de Tatuí para fazer a prova de admissão.

“Algo que eu nunca vou esquecer”, disse Marcos ao relembrar o gesto.

Nunca é tarde: derrubando mitos sobre a idade

Marcos começou o violino tarde para os padrões tradicionais do instrumento. E sabe o que isso rendeu? Alguns professores chegaram a dizer que ele estava velho demais para começar.

Ele reconhece que, historicamente, os grandes solistas e professores universitários costumam ter iniciado na primeira infância, antes dos 7 anos. Mas faz questão de deixar claro: isso não significa que seja impossível começar depois.

Sua irmã, por exemplo, começou a estudar piano aos 40 anos e está, nas palavras dele, “incrivelmente apaixonada” pelo instrumento. Marcos Machado, considerado um dos maiores contrabaixistas brasileiros, começou o contrabaixo acústico já com mais de 20 anos. E Marcos menciona ainda um violinista que começou aos 32 e, aos 35, já estava fazendo cachês na Bahia Filarmônica.

A mensagem é clara: as portas da música não fecham com a idade.

A carreira começa no primeiro dia

Um dos pontos mais marcantes da conversa com Jean foi a visão de Marcos sobre profissionalismo. Para ele, a carreira musical começa no exato momento em que o estudante pega o instrumento pela primeira vez.

“As pessoas vão se lembrar se você chegava no horário, se você era dedicado”, ele disse. “Seus colegas de classe vão ser seus colegas de profissão.”

Essa mentalidade moldou toda a sua trajetória. Ao invés de se preparar somente quando saía um edital de concurso, Marcos sempre buscou estar pronto antes das oportunidades aparecerem. Afinal, concluir um doutorado não é algo que se faz em dois meses.

Ele reforçou que, em música, o planejamento precisa ser de longo prazo. Quer estudar na Alemanha? O idioma já precisa estar sendo trabalhado agora. Quer entrar em uma orquestra? O repertório precisa estar em andamento antes do edital ser publicado.

O doutorado como estratégia, não como destino

Jean perguntou diretamente: sempre foi sua intenção se tornar doutor? Marcos foi honesto na resposta.

Não era um sonho de infância, mas sim uma consequência natural dos seus objetivos. Ele sempre gostou de ensinar e sempre se interessou por entender como as pessoas aprendem. Quando ganhou uma bolsa de estudos para os Estados Unidos, onde passou 9 anos, nunca teve a intenção de ficar por lá.

Queria voltar, queria ensinar, e enxergava na universidade o espaço ideal para isso. O doutorado foi o caminho para chegar lá, a preparação para as oportunidades que poderiam surgir, como a vaga na USP de Ribeirão Preto.

“A pior sensação seria aparecer uma oportunidade e eu não estar preparado”, ele resumiu.

O que é ser profissional de verdade

Um dos momentos mais ricos da conversa girou em torno do conceito de sucesso na música. Marcos questionou, com toda a propriedade de quem viveu isso na prática, a ideia de que só é músico profissional quem toca em uma grande orquestra sinfônica.

Ele contou sobre uma amiga que, em determinado momento, estava tocando em uma orquestra de câmara importante em São Paulo, fazendo cachês, pagando aluguel, carro e contas com o violino. Quando um colega passou para uma grande orquestra sinfônica, alguém disse a ela que “uma hora ela também ia se profissionalizar”. Como se o que ela já fazia não fosse profissional.

Para Marcos, esse tipo de pensamento é, nas suas próprias palavras, “um pouco de estupidez”. A música tem muitas formas de ser vivida profissionalmente. Há quem dê aulas particulares, quem toque em eventos, quem dirija escolas no interior, e seja absolutamente bem-sucedido nisso.

Ele percebe que essa visão restrita de sucesso é mais comum em São Paulo do que no interior, e acredita que ela faz mal à formação de novos músicos.

Integridade como diferencial profissional

Outro tema que perpassou toda a conversa foi o da integridade. Marcos fala de honestidade e comprometimento não como virtudes abstratas, mas como estratégias concretas de carreira.

Ele usou como exemplo a postura de quem subestima a Orquestra Jovem por ser jovem, reservando o esforço “para quando chegar na orquestra profissional”. O problema é que os colegas da Orquestra Jovem serão os colegas da orquestra profissional de amanhã, e eles vão lembrar.

“As pessoas têm memória muito boa”, ele afirmou. E os professores que julgam hoje podem ser os membros de banca que decidem seu futuro amanhã.

Uma conversa que vai além do violino

A história de Marcos Santos é a de alguém que construiu uma carreira sólida sem atalhos, sem pressa e sem abrir mão de onde veio. De um projeto social em Bauru a uma cátedra na USP, passando por 9 anos nos Estados Unidos, ele carrega uma visão madura sobre música, ensino e vida profissional.

Jean e Marcos ainda exploraram muito mais nessa conversa: a pluralidade da carreira musical, o impacto dos projetos sociais, e o papel do professor que acredita no aluno antes que o próprio aluno acredite em si mesmo.

Ouça o episódio completo no YouTube: MARCOS SANTOS - Podcast do Violino Didático #087


Se a história do Marcos te inspirou, lembre-se: toda grande carreira começa com o primeiro acorde. E como Jean sempre diz, todo mundo é capaz de tocar violino.

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