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Matheus Cavalari: do violoncelo ao sonho alemão

Podcast Violino Didático

Matheus Cavalari é violoncelista, professor e alguém que tomou uma decisão corajosa: deixar o Brasil para estudar na Alemanha com um dos maiores nomes do violoncelo contemporâneo. Quando Jean de Oliveira o recebeu em Cotia para essa conversa, Matheus estava a poucos dias de embarcar para Munique e começar uma nova fase da vida.

A história dele mistura bateria, violão, um concerto que mudou tudo e muita persistência. É o tipo de trajetória que mostra que o caminho até um instrumento raramente é uma linha reta.

Do violão à bateria, até o dia que o violoncelo apareceu

Matheus cresceu em Indaiatuba, no interior de São Paulo, filho de um violonista clássico que dava aulas no conservatório local. O começo com a música, portanto, foi pelo violão, o instrumento do pai. Mas a tentativa de estudar com ele em casa não foi adiante: o pai chegava cansado do trabalho e não queria dar mais uma aula. A solução foi ir ao conservatório, onde o único horário disponível era numa turma mais iniciante. Matheus desanimou rápido.

A saída foi a bateria. Havia um primo baterista, havia sempre uma necessidade de bateristas na igreja, e havia um professor no conservatório. Funcionou por um tempo, mas também não durou. Foi então que o pai o levou a um concerto pequeno, numa apresentação de escola.

Matheus ficou parado na frente do violoncelista. Saiu de lá com uma certeza: era aquele instrumento que queria tocar.

Uma associação em Itu e os primeiros passos de verdade

Logo depois, ele começou a estudar numa associação em Itu chamada AEMEC, a Associação Amigos do Teatro Maestro Eliazar de Carvalho. O lugar tinha instrumento emprestado, aulas teóricas e não cobrava nada. Para uma criança que ainda estava descobrindo o instrumento, foi um ambiente perfeito.

Os professores foram mudando com o tempo, mas um nome ficou marcado nesse início: Wellington Ramos, que Matheus cita como o primeiro professor de verdade que teve. Junto a isso, havia a OFF, a Orquestra Filarmônica de Itu, onde ele já tocava desde cedo.

A ligação com a EMESP Tom Jobim veio pelo irmão mais velho, Gabriel Tretel, trombonista que circulava por lá. Matheus descobriu a escola por esse caminho e, em 2012, prestou para o ciclo de formação. Ficou quatro anos, teve professores marcantes e consolidou a base que precisaria para os passos seguintes.

A USP, a Mariana Amaral e a preparação para a Europa

Depois da EMESP, Matheus foi para a USP, onde cursou a graduação e terminou em agosto de 2021. Foi lá também que teve um primeiro contato com Matias de Oliveira Pinto, o professor com quem hoje vai estudar na Alemanha. O músico veio ao Brasil para uma masterclass no Butantã, Matheus fez aula, se interessou e começou a cultivar esse sonho.

O problema era o idioma. A Universidade de Munique exige nível B2 de alemão, que é um patamar considerável. Matheus começou a estudar o idioma em 2021, quando o projeto ainda era uma possibilidade distante.

Ao sair da USP, foi estudar com a violoncelista Mariana Amaral, que tinha experiência internacional e entendeu bem o que ele precisava. Ela foi central na preparação técnica e musical para as provas na Alemanha.

Duas tentativas e a aprovação que veio na segunda vez

Matheus tentou a vaga com Matias pela primeira vez em 2023. As provas acontecem em meados do ano para o semestre que começa em outubro. Ele passou na audição, mas não ficou bem colocado o suficiente para ser chamado para a vaga. Não foi chamado.

Ele descreveu a reação de um jeito bem direto: tristeza de meia hora, e depois a decisão de estudar mais e tentar no ano seguinte. Em 2024, a história foi diferente. A vaga veio. Em setembro, ele embarca.

O programa da audição era exigente e bem estruturado: um capricho ou estudo, obras de dois movimentos contrastantes, uma peça clássica (geralmente um concerto de Haydn), uma peça romântica e uma escolha livre. Para a livre escolha, Matheus levou uma obra da compositora brasileira Marisa Rezende, contemporânea. A escolha foi estratégica: o restante do programa já cobria barroco, clássico e romântico, então fazia sentido abrir o leque.

O curso que vai fazer em Munique

O que Matheus vai cursar não é um mestrado convencional. É chamado de Artist Performance Certificate, uma pós-graduação voltada para a prática, sem a exigência de pesquisa acadêmica como um mestrado tradicional. Ele comparou, na conversa com Jean, a algo como uma pós-graduação especializada no Brasil: mais focada naquilo que você quer aprimorar, no caso dele a performance no violoncelo.

O primeiro ano também serve para consolidar o alemão. A universidade tem um centro de idiomas, e há opções por fora também. Quem quiser seguir esse caminho no futuro: comece o alemão cedo. Esse foi o conselho implícito que Matheus deu ao longo de toda a conversa.

Matias de Oliveira Pinto e a classe disputada

Matias de Oliveira Pinto é uma referência no mundo do violoncelo, especialmente para músicos brasileiros. Ele vem com frequência ao Brasil, participa de festivais como o de Ouro Branco, em Minas Gerais, e tem uma classe reconhecida por ser bem disputada.

Matheus foi construindo a relação com ele ao longo dos anos, sempre sinalizando o interesse. Encontrou-o em festivais, em masterclasses, foi mostrando presença e intenção. Esse tipo de consistência, de aparecer e deixar claro o objetivo, fez parte do caminho até a aprovação.

O que a trajetória de Matheus diz sobre aprender um instrumento

Com a trilha que Matheus percorreu, há uma cena que ficou na memória da conversa: a da criança que ficou parada olhando para o violoncelista num concerto pequeno e saiu de lá sabendo o que queria. Jean levantou uma hipótese interessante a partir disso: será que existe correlação entre onde a pessoa senta no concerto e qual instrumento passa a querer tocar?

É uma pergunta sem resposta definitiva, mas que diz muito sobre o poder de ver a música ao vivo. O violino atrai atenção também porque há muitos deles numa orquestra. O fagote, como Jean brincou, fica escondido no meio e quase ninguém sabe nem o que é.

Levarpessoas ao concerto, especialmente crianças, pode ser o gatilho que muda uma vida inteira.

Outça o episódio completo no YouTube: MATHEUS CAVALARI - Podcast do Violino Didático #089

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