Ir para o conteúdo

Natalia Mattos: violino, musicoterapia e saúde mental

Podcast Violino Didático

Do violino à musicoterapia: uma trajetória que poucos esperariam

Natalia Mattos começou a tocar violino aos 9 anos, em Sorocaba, quase por acidente. O pai não tinha onde colocar um piano em casa, então o violino virou a segunda opção. Mas o que começou como um plano B se tornou o centro de toda a sua vida profissional, só que de um jeito que ela mesma não imaginava.

Hoje, Natalia atua principalmente como musicoterapeuta. Ela trabalha com crianças que têm transtornos do neurodesenvolvimento, usando a música não para ensinar música, mas para estimular habilidades que essas crianças vão precisar na vida diária.

O que é, afinal, musicoterapia

A musicoterapia é o uso da música e de elementos sonoros para promover saúde. Natalia explica que existem diferentes abordagens dentro da área, cada uma com foco em públicos distintos.

Há a vibroacústica, que estuda os efeitos das ondas sonoras no corpo humano. Há a neurológica, que é a linha onde Natalia atua: neurorreabilitação, desenvolvimento de habilidades em crianças com atrasos, recuperação de funções em pacientes que sofreram AVC. E há ainda a analítica, voltada para saúde mental e autoconhecimento, com uso de improvisação e composição.

O alcance da área é surpreendente. Natalia menciona, por exemplo, uma colega que trabalha com crianças surdas por meio da musicoterapia. A música, quando bem direcionada, atravessa fronteiras que parecem intransponíveis.

A diferença entre ensinar música e usar música como ferramenta

Esse é um ponto que Natalia deixa bem claro: as técnicas usadas na musicoterapia se parecem com as da educação musical, mas o objetivo é completamente diferente.

Quando um professor de musicalização pede que uma criança bata um ritmo, ele quer que ela aprenda ritmo. Quando Natalia faz o mesmo, ela está trabalhando concentração, controle motor e atenção compartilhada. A música é o meio; o desenvolvimento da criança é o fim.

“A música não é o objetivo, é o efeito colateral”, ela resume com precisão.

Isso muda tudo na forma de conduzir as sessões. O musicoterapeuta não cobra perfeição técnica da criança. O processo tem tempo. Os resultados são avaliados ao longo de meses, com relatórios para os pais e objetivos terapêuticos bem definidos.

Viena, pressão e o ponto de virada

Antes de chegar à musicoterapia, Natalia percorreu um caminho intenso como violinista. Ela estudou no Conservatório de Tatuí dos 13 aos 16 anos, depois passou para a Escola Estadual de Música de São Paulo, onde estudou com Cecília Guida. Tocou em orquestras jovens, incluindo o Instituto Baccarelli, em Guarulhos, onde conheceu Jean.

Com 16 anos, foi morar em Viena por dois anos para se preparar para o ingresso na universidade de música. Estudou na Johann Sebastian Bach Musikschule e mergulhou fundo no mundo da performance profissional.

Mas algo não estava bem.

Natalia percebeu que a dinâmica da avaliação constante a adoecia. Antes de cada prova, ela sentia dores físicas, dor de barriga, dores no corpo, ansiedade intensa. Ao sair da sala de avaliação, era como se tivesse tomado uma surra. “Eu passava muito mal assim”, ela conta.

Além disso, ela começou a perceber que tinha perdido a razão pela qual amava a música. Quando ia a concertos, não conseguia mais simplesmente ouvir e se emocionar. Ficava avaliando a técnica da orquestra, a performance dos músicos. A apreciação artística havia sumido.

Foi em Viena que ela começou a ler sobre musicoterapia e sobre neuroplasticidade. E foi lá que ela tomou a decisão de mudar de caminho.

O que a neuroplasticidade tem a ver com música

Um dos temas que mais apaixona Natalia é exatamente esse: o que a música faz com o cérebro.

Ela explica que, quando uma área do cérebro é danificada por um AVC ou por algum trauma neurológico, outros neurônios podem assumir as funções daquela região. Esse processo se chama neuroplasticidade. E a música, pela sua complexidade, é um estímulo poderoso para ativá-lo.

Pense numa criança cantando e batendo palma ao mesmo tempo. Parece simples. Mas o cérebro está processando a melodia, reproduzindo-a com a voz, controlando o ritmo e coordenando o movimento motor das mãos, tudo simultaneamente. Para crianças neurotípicas, isso é automático. Para crianças atípicas, é um desafio enorme e, exatamente por isso, um exercício terapêutico riquíssimo.

Natalia menciona ainda estudos sobre pacientes que haviam perdido mobilidade e que, ao ser estimulados com música, conseguiam realizar movimentos que não conseguiam sem ela. Outras áreas do cérebro entravam em ação e compensavam o que havia sido danificado.

“Uma coisa muito simples, como o Atirei o Pau no Gato, pode trazer ganhos imensos para uma criança”, ela diz. Não precisa ser uma sinfonia.

O pai violoncelista e uma família que sempre teve música

Natalia cresceu num ambiente musical, mesmo que não houvesse músicos profissionais na família. Ainda novinha, com 4 anos, fez aulas de teclado numa escolinha da cidade. Cantou em coral na escola. E o pai, inspirado por assistir às apresentações da filha, decidiu aprender violoncelo já depois dos 40 anos.

Ele chegava do trabalho, sentava com o instrumento e estudava. Tocava numa orquestra de um conservatório em Sorocaba. Para ele, era puro hobby, algo terapêutico. Natalia e o pai chegaram a tocar juntos na igreja.

Essa história ilustra bem algo que Jean gosta de destacar: a música não precisa ser caminho para a profissionalização. Ela pode, e deve, fazer parte da vida de qualquer pessoa, em qualquer fase.

A escassez de espaços musicais para adultos

Um ponto levantado na conversa chama atenção: existem muitos projetos de orquestras e conservatórios voltados para crianças e adolescentes, mesmo para aqueles que não pretendem seguir carreira musical. Mas o mesmo não acontece para adultos.

Natalia menciona que há uma busca crescente de adultos que querem aprender a tocar um instrumento, mas a oferta de espaços estruturados para esse público ainda é pequena. É uma lacuna real no ecossistema musical brasileiro.

Terapia para músicos: algo que todo mundo deveria fazer

Jean abriu o bate-papo com uma frase certeira: Natalia faz algo que todos os músicos deveriam fazer. Terapia.

A própria trajetória dela é a prova disso. A pressão da performance constante, a sensação de que o corpo está sempre sendo avaliado, a incapacidade de simplesmente ouvir música sem julgá-la: tudo isso são sinais de que a relação com a música havia se tornado adoecida.

A virada para a musicoterapia não foi fuga, foi reconexão. Reconexão com o motivo pelo qual ela havia escolhido a música desde pequena, mesmo antes de saber o que queria da vida.

E hoje, ela usa esse mesmo poder transformador da música a favor de crianças que precisam de uma chance para se desenvolver no próprio ritmo.


Ouça o episódio completo no YouTube: NATALIA MATTOS - Podcast do Violino Didático #094

Continue lendo