Natália Versehgi: violino, distonia focal e recomeço
Natália Versehgi é violinista e professora de violino com uma trajetória marcada por determinação, descobertas e uma reviravolta que poucos músicos enfrentam. Ela foi a convidada do sexto episódio do Podcast do Violino Didático, onde conversou com Jean de Oliveira sobre os bastidores de sua vida musical: desde os primeiros acordes até o diagnóstico de distonia focal e o corajoso recomeço tocando do lado oposto.
A conversa foi leve, honesta e cheia de momentos que qualquer músico, iniciante ou experiente, vai reconhecer.
De volta ao início: como tudo começou
Natália tinha 11 anos quando fez musicalização infantil e já sentia aquela dúvida clássica: violino ou flauta transversal. Nada mais diferente um do outro, mas foi essa a escolha que pairava na cabeça dela. Por um tempo, a flauta transversal levou a melhor: foi o primeiro instrumento erudito que ela tocou, em um projeto social onde estudava.
Mas o violino acabou ganhando a disputa de uma forma bem inusitada. Certo dia, ela simplesmente acordou com violino na cabeça. Sem mais explicações. E a partir daí começou a convencer os pais a comprar o instrumento.
Ela cresceu em uma família de classe social mais humilde, como ela mesma descreveu, então encher o saco dos pais foi um exercício de persistência de verdade. Não por semanas, mas por muitos meses. Ela ria ao contar, mas deixou uma mensagem clara para quem está nessa situação hoje: insista. Vale a pena.
A primeira aula e a vontade de desistir
Assim que finalmente começou as aulas, veio o primeiro baque. Na primeira aula, Natália ficou convicta de que nunca conseguiria segurar o arco. A sensação era de que aquilo era impossível.
Só que ela não podia desistir. Tinha enchido tanto o saco dos pais que desistir logo de cara estava fora de cogitação. Então ela continuou.
Em uma semana, o arco já estava na mão do jeito certo.
Ela conta que o segredo foi treinar em casa com lápis e caneta, mais leves que o arco, para ir acostumando os dedos. Também ficava se olhando no espelho para checar se a posição estava como o professor havia pedido. Esse hábito do espelho, ela disse, é algo que leva para as próprias aulas até hoje: o espelho é o melhor professor que um aluno pode ter no estudo em casa.
Festivais, masterclasses e o encontro com Jean
Natália e Jean se conheceram em um festival de música em Poços de Caldas, o Festival de Música nas Montanhas. Os dois subiram aquela famosa trilha até o Cristo no topo da montanha, em algum ano entre 2011 e 2013, e foram construindo uma amizade ao longo de outros festivais pelo Brasil.
O momento mais marcante que ambos compartilharam foi a ida ao Juilliard, em Nova York, para o Starling-DeLay Symposium: um curso voltado a professores de violino que acontece a cada dois anos e reúne docentes do mundo inteiro. Foram cerca de uma semana em um dos conservatórios mais icônicos do planeta. Como Jean brincou na conversa, os dois podem colocar no currículo que estudaram no Juilliard, porque não é mentira.
Distonia focal: o diagnóstico que mudou tudo
Em um momento da conversa, Natália tocou em um assunto que poucas pessoas falam abertamente: a distonia focal do músico. É uma condição neurológica que afeta o controle motor fino, especialmente em movimentos muito repetitivos e especializados, como os exigidos por um instrumento musical.
Ela demorou para descobrir o que era. Naquela época em que Jean a conheceu no festival, ela ainda conseguia tocar, mas precisava fazer diversas adaptações técnicas para lidar com as contrações involuntárias. Hoje, ela não consegue mais tocar no nível que tinha antes.
Mas a história não para aí.
Reaprendendo violino do outro lado
Natália está reaprendendo violino do lado esquerdo, o chamado violino canhoto, com o instrumento invertido. É um recomeço do zero, literalmente. E ela contou isso com uma leveza surpreendente.
A experiência mudou completamente a visão dela sobre o violino canhoto. Ela admitiu que antes era contra essa abordagem, especialmente pelo argumento da orquestra: como um violinista canhoto tocaria em conjunto com os demais? Mas, quando a necessidade bateu à porta, a perspectiva mudou.
Jean aproveitou o gancho para dizer que o próprio pensamento dele sobre violino canhoto também evoluiu muito, e que um episódio inteiro sobre o tema está a caminho do podcast. A fala de Natália resume bem a virada de chave: quando você é obrigado a fazer as adaptações que outras pessoas precisam, você repensa tudo.
Professora de violino desde os primeiros anos
Além de tudo isso, Natália é professora de violino e trabalha com crianças a partir dos 3 anos de idade. Ela comentou sobre algumas adaptações pedagógicas que usa com os pequenos, como ensinar a pegada do arco pela parte inferior do talão, porque as articulações das crianças ainda estão em desenvolvimento e essa posição oferece mais estabilidade.
Ela também refletiu sobre como seu próprio início no violino foi bastante tradicional: leitura de partitura desde cedo, sem passar pelas variações do método Suzuki. Só mais tarde, já como professora em formação, foi se aprofundar nessa abordagem e entender a importância de cada etapa do método.
O estudo diário sempre fez parte da rotina dela. No começo, meia hora já era muito. Com o tempo, chegou a duas horas por dia, especialmente no segundo ano de violino, quando o repertório foi se expandindo com concertos e outros métodos além do Suzuki.
Uma conversa que vale a pena ouvir
A trajetória de Natália Versehgi é daquelas que inspiram pela honestidade. Ela não pintou uma história perfeita, fez o caminho ao caminhar: com dificuldades reais, um diagnóstico difícil e a coragem de recomeçar do lado oposto do instrumento que ama.
É exatamente o tipo de conversa que o Podcast do Violino Didático se propõe a ter: direta, humana e cheia de aprendizados para quem toca, para quem quer aprender e para quem ensina.
Ouça o episódio completo no YouTube: NATÁLIA VERSEHGI - Podcast do Violino Didático #006