Oscar Bohorquez: a carreira de solista internacional
O solista que mais visita o Brasil
Se você frequenta concertos no Brasil, há boas chances de já ter visto Oscar Bohorquez no palco. Desde 2013, o violinista visita o país quase todo ano. Não é exagero dizer que ele talvez seja o solista internacional que mais veio ao Brasil na última década.
Na conversa com Jean de Oliveira, Bohorquez chegou direto do Teatro B32, onde havia tocado o Concerto para Violino de Beethoven dois dias antes, com a Orquestra Acadêmica do Monarte. O sentido de tempo, ele mesmo admitiu, fica um pouco perdido com tantas viagens.
Raízes peruanas, uruguaias e uma casa em Paris
Oscar nasceu em Karlsruhe, na Alemanha. Mas a família carrega forte ligação com a América Latina: o pai é peruano e tocou fagote por quase 40 anos na orquestra da Ópera de Karlsruhe; a mãe é uruguaia e pianista. O irmão mais velho escolheu o violoncelo e hoje é professor e solista em Berlim.
Com tanto músico em casa, o violino poderia ter sido uma escolha óbvia. Mas a história tem um detalhe bonito.
Um concerto na televisão e um violino de papelão
Com 3 anos e meio, Oscar assistia com a família ao programa dominical de concertos na televisão. Naquele domingo, estava tocando o Concerto de Tchaikovski. A cena o impressionou tanto que ele parou tudo, pegou o que tinha à mão e construiu um violino de brinquedo.
O pai percebeu a seriedade da coisa. Buscou um instrumento pequeno junto a colegas da orquestra e organizou as primeiras aulas. A partir daí, nunca mais houve dúvida sobre o que Oscar faria da vida.
“Essa questão nunca tive”, ele disse a Jean. “O violino estava sempre presente. Nunca me perguntei o que ia fazer.”
Formação nos lugares certos
Bohorquez estudou no Curtis Institute of Music, na Filadélfia, uma das instituições mais difíceis do mundo para ingressar. Segundo ele, é mais difícil entrar no Curtis do que no Harvard. Depois, aprofundou os estudos em Viena, com foco no desenvolvimento técnico e musical.
O professor Aaron Rosand, já falecido, foi uma das referências marcantes dessa época. Uma figura que, como veremos mais à frente, tinha muito a ensinar sobre carreira, não apenas sobre violino.
Quarenta concertos por ano, sem emprego fixo
Hoje, Oscar acumula cerca de 40 concertos por ano, entre recitais e apresentações como solista com orquestra. Uma média de quatro por mês, com variações de acordo com as turnês.
O que chama atenção é que ele construiu isso sem um posto fixo em orquestra ou universidade. Sem cadeira garantida, sem salário mensal. Uma escolha que ele descreve com clareza: a instabilidade, paradoxalmente, o mantém afiado.
“Quando você tem uma situação segura, pode relaxar um pouquinho”, ele explicou. “Eu não posso relaxar. Como solista, tenho que estar sempre no máximo, manter o nível, melhorar, cuidar das relações com os organizadores.”
Ele reconhece que é um caso relativamente excepcional. E que o caminho teve muitos anos de incerteza, contas no fim do mês, seguro do violino, passagens aéreas. Ser solista, como ele lembrou com humor, também tem boleto.
O que ninguém ensina no conservatório
Essa é talvez a parte mais honesta da conversa. Oscar admite que aprendeu a gerir a carreira de forma instintiva, por necessidade, não por formação.
O Curtis e Viena ensinaram técnica, musicalidade, repertório. Mas ninguém ensinou como entrar em contato com diretores artísticos, como organizar uma lista de parceiros, como manter relações com organizadores de festivais ao longo dos anos.
“Acabei aprendendo ao fio dos anos”, ele contou. “Hoje já existem programas que ensinam isso paralelamente aos estudos. Na minha época, não havia.”
Ele citou um exemplo que Jean também conhecia: o violinista Henryk Szeryng, um dos grandes nomes do século 20, carregava uma pequena agenda com o nome de cada organizador que conhecia. Para cada um, anotava detalhes pessoais: o nome do cachorro, da esposa, da família. Assim, quando entrava em contato, podia fazê-lo de forma genuinamente pessoal.
Isso nos anos 60 e 70. A lição é clara: “tocar bem” nunca foi suficiente sozinho.
A frase que não faz sentido
Jean trouxe um ponto que ressoa muito no meio musical brasileiro: a ideia de que “antigamente bastava tocar bem”. Bohorquez concordou com a crítica.
Não há época dourada em que o talento isolado bastasse. Sempre foi preciso cultivar relações, ser presente, ser organizado. O que mudou foi a forma: hoje, as redes sociais são parte importante desse processo. Vídeos, fotos de concertos, presença digital consistente. Oscar admite que ainda está aprendendo esse lado, acompanhando o que os colegas fazem e testando o que funciona.
“Criar e cultivar o próprio público”, ele disse, “é algo que ninguém me ensinou. Estou aprendendo até hoje.”
Beethoven como fio condutor no Brasil
Há uma curiosidade nas visitas de Oscar ao Brasil: Beethoven aparece em quase todas. O Concerto Triplo no Festival de Trancoso, as Romanzas, o Concerto para Violino em Brasília e no Recife, e agora de novo em São Paulo.
Não foi totalmente planejado. Nas conversas com Sabine Lovatelli, diretora do Instituto Baccarelli, o nome de Beethoven acabava surgindo naturalmente. E o público brasileiro recebe bem. Oscar acredita que o repertório beethoveniano tem uma presença especial aqui, talvez menos explorada do que Brahms ou Tchaikovski nas temporadas recentes.
O espírito livre que virou música
Bohorquez compôs uma peça que chama de “Espírito Livre”. O título diz muito sobre como ele enxerga a própria carreira: a liberdade de escolher o que tocar, a flexibilidade de um calendário construído por ele mesmo, o desafio como motor permanente.
É uma postura que tem custo. Mas também tem recompensa. E, na visão dele, a recompensa está exatamente na exigência que essa liberdade impõe.
O que essa história ensina
A trajetória de Oscar Bohorquez não é um manual de carreira. É, antes, um relato honesto de quem escolheu um caminho difícil e foi aprendendo a sustentá-lo ao longo dos anos.
Para quem estuda violino no Brasil e sonha com palcos internacionais, há muita coisa concreta aqui: a importância das relações humanas, da organização, da presença digital, da persistência. E também o reconhecimento de que tocar muito bem é o pré-requisito, não a garantia.
Como Jean observou durante a conversa: há muita gente que toca muito bem e não consegue. E há quem toque bem, cuide das relações e constrói uma carreira sólida ao longo do tempo.
Ouça o episódio completo no YouTube: OSCAR BOHORQUEZ - Podcast do Violino Didático #118