Paloma Pitaya: violino, composição e a música brasileira
Paloma Pitaya é violinista, compositora e arranjadora. Mas o que chama atenção no seu trabalho é algo difícil de nomear com precisão. Jean de Oliveira tentou da seguinte forma: ela inaugurou, na cabeça dele, uma categoria especial de violinistas. A categoria dos Ronaldinho Gaúcho do instrumento.
Essa apresentação já diz muito sobre quem é Paloma. Ela não se encaixa nos moldes tradicionais do violino clássico. Ela compõe músicas brasileiras, toca em rodas com amigos, transita entre o erudito e o popular com uma naturalidade desconcertante.
A música que queria tocar com os amigos
O ponto de partida do trabalho de Paloma como compositora é bem concreto: ela queria tocar para os seus amigos. Não para grandes platéias, não para concursos. Para as pessoas que ela ama.
Essa vontade cresceu quando ela foi morar em Porto Alegre e passou a frequentar a casa de amigos que tocavam instrumentos. O ambiente tinha muito da energia dos saraus: todo mundo é público e artista ao mesmo tempo. Foi nesse contexto que ela sentiu falta de um repertório que trouxesse a cara do Brasil para o violino.
Quando ela fala em música brasileira, não está falando só de gêneros e ritmos. Está falando de uma alegria específica, de uma qualidade rítmica que ela não encontrava no repertório clássico. E foi para suprir essa necessidade que ela começou a compor.
Uma infância entre Barcelona e Santa Maria
Paloma nasceu no Brasil, mas foi morar em Barcelona ainda com dois anos. Os pais, professores universitários, foram fazer doutorado na Espanha. Desde muito pequena, ela já falava de violino. Tanto que ganhou um colar com um violino em miniatura de tanto repetir o assunto.
O problema é que, naquela época, o conservatório onde ela estudava não tinha método para ensinar crianças a tocar violino. As aulas de violino eram só para quem já era maior. Paloma teve que começar pelo coral, pelo piano e pela teoria musical.
Ela não gostava das aulas de piano. Queria mesmo era tocar violino. Os colegas de turma tinham uns oito anos, mas para ela, que tinha quatro ou cinco, pareciam adultos.
O encontro com o método Suzuki
Ao voltar para o Brasil, Paloma foi morar em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. E foi lá, aos nove anos, que ela finalmente começou a tocar violino por meio do método Suzuki.
Santa Maria tem um lugar especial na história do Suzuki no Brasil. Acredita-se que a cidade foi uma das primeiras do país a receber o método, graças à influência de uma freira que incentivou a professora Shinob a treinar professores e iniciar os cursos por aqui.
Nas aulas, Paloma tinha aulas coletivas e particulares, participava de apresentações com outras crianças e já aprendia a ler partitura desde o início. Ela lembra de escrever o nome das notas a caneta vermelha na partitura, uma colinha visual para facilitar a leitura.
No momento em que começou a tocar violino, ela soube. Era isso. Era o que queria fazer pelo resto da vida.
Oito horas de ônibus por uma aula de violino
Paloma ficou em Santa Maria até os 21 anos, quando se formou na UFSM (seus pais são professores lá, em outras áreas). Mas, a partir dos 16 anos, ela passou a fazer uma viagem semanal para Porto Alegre. O motivo: aulas com Marcelo Gers, um dos maiores pedagogos do violino no Brasil.
A distância entre Santa Maria e Porto Alegre é de quatro horas. Ida e volta no mesmo dia: oito horas de ônibus para uma aula de uma hora, uma hora e meia, às vezes duas horas com o professor.
A rotina era intensa. Ela ia à escola de manhã, pegava o ônibus à tarde, chegava a Porto Alegre no fim do dia, tinha a aula, e voltava chegando já de madrugada. Nos primeiros tempos, ia com o pai. Depois, com o irmão. Nos últimos anos, já fazia o trajeto sozinha.
Essa dedicação durou sete anos. E foi esse investimento, tanto de tempo quanto de energia, que moldou a violinista que ela se tornou.
Como o Suzuki chegou até ela
Paloma conheceu Marcelo Gers no Femusc, um festival de música de Santa Catarina. Foi sua mãe quem teve a iniciativa de perguntar se ele toparia dar aulas para ela. Ele topou, e a parceria durou quase uma década.
Essa capacidade da mãe de enxergar oportunidades aparece em outros momentos da conversa. Também foi a mãe quem pesquisou sobre o método Suzuki quando Paloma ainda queria tocar violino sem conseguir. Uma figura presente e atenta, mesmo sem ser música.
Curiosamente, Paloma descobriu há pouco tempo que a mãe é uma ouvinte apaixonada de música clássica. Ela compartilhavam a conta do Spotify, e no fim do ano a retrospectiva revelou que a mãe tinha ouvido o Concerto nº 2 para Piano de Beethoven centenas de vezes. Paloma não tinha a menor ideia.
Violino como desafio antes de ser música
Há um detalhe interessante sobre o início da relação de Paloma com o violino. Ela admite que, no começo, o que a motivava não era exatamente o amor pela música. Era o desafio.
Ela via os colegas tocando e percebia que tinha uma certa facilidade com o instrumento. Isso despertava nela a vontade de ir além, de testar seus limites. A música veio junto, mas o gatilho inicial foi a competição consigo mesma.
Essa honestidade sobre os próprios começos é uma das coisas que tornam a conversa com Paloma tão interessante. Ela não constrói uma narrativa idealizada sobre sua trajetória. Conta como as coisas realmente aconteceram.
Uma violinista que reinventou seu próprio caminho
De Barcelona a Santa Maria, de oito horas de ônibus por semana até a cena musical brasileira contemporânea, Paloma Pitaya construiu uma trajetória única. Ela pegou uma formação clássica sólida e a colocou a serviço de uma sonoridade própria, brasileira, alegre e cheia de ritmo.
A conversa com Jean de Oliveira revela uma artista que pensa profundamente sobre o que faz e por quê. Alguém que compõe porque quer tocar junto com os amigos. Que viajou horas por anos a fio porque amava tocar. E que, no fim das contas, encontrou no violino uma linguagem capaz de dizer tudo que ela queria dizer.
Ouça o episódio completo no YouTube: PALOMA PITAYA - Podcast do Violino Didático #032