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Paulo Egídio: o violinista que planejou virar professor universitário

Podcast Violino Didático

O encontro que a internet esperava

Quando Jean de Oliveira recebeu Paulo Egídio no estúdio em Cotia, a energia era de reencuentro entre dois apaixonados pelo violino. Paulo tinha acabado de chegar de Maringá, ainda se recuperando de um dedo quebrado, mas sem a menor intenção de cancelar.

O motivo? Simples: ele já esperava aquele encontro há muito tempo. E a esposa também, que mandou abraços e prometeu aparecer na próxima visita a São Paulo.

Quem é Paulo Egídio

Paulo Egídio ocupa um lugar raro no Brasil: é professor universitário de violino em um curso de graduação e pós-graduação. Ele leciona na Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, há quase 13 anos.

Se parece pouco, pense assim: existem apenas 21 cursos de graduação em violino no Brasil. Isso significa que provavelmente menos de 40 pessoas no país podem dizer, com precisão, que são professores universitários de violino no nível de graduação e pós-graduação. Paulo é uma delas.

Além de professor, ele já foi chefe de departamento por quatro anos. Hoje coordena o programa de Mestrado em Música da UEM, uma responsabilidade burocrática enorme que ele ainda está aprendendo a administrar, com ajuda dos colegas.

A trajetória que poucos esperariam

O que torna a história de Paulo especialmente interessante é o caminho que ele percorreu. Ele cresceu em Florianópolis, uma capital com menos tradição musical do que centros como São Paulo ou Curitiba, na época em que estudava.

Com 28 anos, chegou à Orquestra Sinfônica do Paraná, em Curitiba. Tinha um bom contrato, um bom salário e toda a facilidade do mundo para se acomodar.

Mas ele não se acomodou.

O professor que jurou nunca mais dar aula

Antes de Curitiba, Paulo já dava aulas de violino desde os 18 ou 19 anos. E tinha uma única qualidade como professor naquela época: ele nunca culpava os alunos pelos resultados ruins.

Quando via que nenhum aluno evoluía, ele se perguntava onde estava o problema, e a resposta honesta era sempre a mesma: em si mesmo. Mesmo assim, a experiência foi frustrante. Quando chegou a Curitiba, havia tomado uma decisão firme: nunca mais daria aula.

Foi exatamente o oposto que aconteceu.

O professor que mudou tudo

Em Curitiba, Paulo encontrou um professor que mudou sua relação com o ensino. O professor Marco, aluno de bío, percebeu o interesse de Paulo e começou a supervisioná-lo como professor, da mesma forma que grandes conservatórios formam seus docentes: por meio de assistência e orientação direta.

Foi esse processo que abriu os olhos de Paulo para o que significa, de fato, ensinar violino.

A fratura que virou plano de carreira

Com 32 anos, Paulo quebrou o braço. Durante a fisioterapia, percebeu uma dificuldade crescente de movimento e chegou a uma conclusão incômoda: talvez não pudesse ser performer para sempre como imaginava.

Em vez de entrar em colapso, ele transformou aquela limitação em planejamento. Estava aprendendo a ensinar com qualidade, graças ao professor Marco. Por que não tornar isso uma carreira?

Dois anos depois, o mesmo professor o incentivou a fazer a graduação em violino. Paulo entrou na universidade aos 35 anos. Saiu formado aos 39. Com 41 anos, assumiu a vaga de professor universitário.

Como ele mesmo resume: com 28 anos, jurou que nunca mais daria aula. Com 30, começou a aprender como ensinar de verdade. Com 32, planejou a transição. Com 41, era professor universitário.

Consistência acima de tudo

Quando Jean perguntou quais decisões fizeram a diferença, Paulo foi direto: nunca parou de estudar e nunca parou de fazer aula.

Não foi intensidade. Foi constância.

Jean reconheceu imediatamente a ideia: consistência ganha de intensidade. Paulo concordou sem hesitar. Ele nunca foi o mais talentoso da sala, nem o mais dedicado em sentido absoluto. Mas foi constante, e essa constância o levou a lugares que o talento sozinho não teria levado.

Um paradoxo revelador

Há algo quase irônico na trajetória de Paulo: ele entrou na universidade como aluno já sabendo que queria se tornar professor universitário. Ou seja, entrou na graduação para conquistar a vaga que ainda nem tinha feito a formação necessária para pleitear.

Ele mesmo chama de paradoxo engraçado. Mas funciona como resumo perfeito de sua mentalidade: enxergar o destino antes de ter o caminho pronto, e construir esse caminho com paciência.

O doutorado e a questão do título

Paulo concluiu mestrado e doutorado em música. Defendeu o doutorado no dia do seu aniversário de 48 anos, um detalhe que ele considera significativo.

Sobre usar o título nas redes sociais, ele tem uma visão interessante. Assinar como “Doutor Paulo Egídio” pode soar pedante para quem não conhece o contexto. A alternativa mais inteligente, segundo ele, seria mencionar na bio que possui mestrado e doutorado em música. Assim, quem bate o olho entende que não está diante de um perfil qualquer.

Jean, com seus 30 anos, ouviu tudo isso com atenção e brincou: a diferença de idade explica por que Paulo ainda o chama de “senhor”.

Nunca é tarde demais

Em determinado momento da conversa, Jean mencionou que descobriu, havia pouco, que Cláudio Cruz começou a graduação com 47 anos e estava prestes a defender o doutorado. Paulo não se surpreendeu.

Para ele, começar mais tarde tem seus méritos. Quem chega à universidade com experiência de vida já traz consigo algo que os jovens ainda vão construir: clareza de propósito.

Essa perspectiva ressoa diretamente com a mensagem central do Violino Didático: todo mundo é capaz de tocar violino, e nunca existe o momento errado para começar.

O que Paulo Egídio representa

A trajetória de Paulo não é a de um prodígio. É a de alguém que tomou decisões consistentes ao longo do tempo, teve humildade para admitir que não sabia ensinar, buscou aprender com quem sabia, e construiu uma carreira sólida com planejamento e paciência.

Ele é, como Jean o apresentou logo no início, uma enciclopédia humana do violino. Não pelo talento excepcional, mas pelo acúmulo de experiência, reflexão e estudo contínuo.

Ouça o episódio completo no YouTube: PAULO EGIDIO - Podcast do Violino Didático #041

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