Paulo Galvão: de São Mateus à regência na OSESP
Paulo Galvão cresceu na região de São Mateus, na periferia de São Paulo. Para chegar aos ensaios, pegava ônibus até Guaianases, trem até a Luz e ainda caminhava pelo centro da cidade. Esse trajeto longo se tornaria símbolo de uma trajetória ainda mais impressionante: a de um músico que passou duas vezes pela Academia da OSESP e hoje rege orquestras de alto nível.
Violinist, maestro e professor, Paulo Galvão é um dos raros músicos brasileiros com essa dupla formação dentro de uma das mais exigentes instituições musicais do país. Jean de Oliveira o recebeu em Cotia para uma conversa franca sobre carreira, aprendizado e o que significa realmente aproveitar as oportunidades que a música oferece.
De São Mateus à Academia da OSESP
A Academia da OSESP foi criada para formar instrumentistas capazes de tocar em orquestras de alto nível. Paulo entrou por volta de 2006 e viveu de perto o surgimento de músicos que hoje integram os principais grupos do país. Nomes como Lucas Expósito, no contrabaixo, e Ederson, na viola, são exemplos de colegas que passaram pela academia e foram parar na própria OSESP.
O programa era desafiador, mas Paulo destaca o que tornava a experiência única: tocar regularmente com maestros diferentes, em repertórios variados, dentro de uma orquestra de verdade. Não era simulação. Era o real.
Ele lembra de colegas que, às vezes, não queriam tocar em determinados programas. A atitude o espantava. Na visão dele, cada programa era uma aula impossível de ser reproduzida: um maestro polonês, uma sinfonia de Britten, o segundo violino bem no meio de tudo isso. Uma chance que, na prática, talvez nunca se repita.
Cada ensaio é uma chance que não volta
Essa percepção sobre o valor das oportunidades é um dos pontos mais fortes da conversa. Paulo faz um raciocínio simples e direto: se alguém te convidasse para tocar na OSESP e você tivesse que pagar mil reais por isso, você pagaria? A maioria diria que sim, sem hesitar.
Então por que, quando a oportunidade aparece de graça, algumas pessoas a descartam?
Ele usa como exemplo a Sagração da Primavera, de Stravinsky. Tocou uma vez com um maestro americano, Robert Triven, e guarda a memória daquele ensaio até hoje. Quantas vezes na vida um músico toca a Sagração? Poucas. Talvez uma ou duas. Abrir mão disso, na época em que a chance estava ali, seria um nível de aprendizado simplesmente não alcançado.
O paradoxo do talento e da carreira
Jean e Paulo tocam num tema delicado: o que dizer a um aluno sobre suas perspectivas reais de carreira? Paulo conta que, lá atrás, alguém lhe disse, com carinho, que provavelmente ele não seguiria como solista. A frase poderia soar cruel. Mas Paulo a recebeu bem, e hoje reflete sobre o quanto esse tipo de honestidade, quando bem colocada, pode ser libertadora.
Ao mesmo tempo, ele reconhece que não existe fórmula certa. Dizer a um aluno que ele não vai chegar lá pode ser devastador. Mas alimentar ilusões também tem um custo alto. O ponto de equilíbrio é difícil, e Paulo admite isso sem rodeios.
Ele usa o exemplo do eufônio para ilustrar a questão: um instrumento lindo, com apaixonados de verdade, mas com um mercado de trabalho muito restrito no Brasil. O violino, por outro lado, tem um leque maior. E entre as possibilidades desse leque, Paulo menciona uma com bom humor e sem qualquer preconceito: o mercado de casamentos.
A vida como regente e o violino que nunca parou
Hoje, Paulo Galvão atua principalmente como regente. É maestro assistente de Isaac Karabtchevsky na Orquestra Sinfônica do Instituto Baccarelli e acaba de assumir como maestro titular da Orquestra Juvenil da instituição. A casa vai ganhar um teatro novo, com projeto acústico do engenheiro responsável pela Sala São Paulo e pela Sala Minas, o que deixa a equipe entusiasmada.
Mas o violino nunca saiu de cena. Paulo conta que toca quase todos os dias, não por obrigação, mas por escolha. Sem a pressão de recitais ou carreiras para construir, ele descobriu algo curioso: estuda melhor agora do que estudava quando praticava seis horas por dia com medo de errar.
Ele compara esse estado com o que costuma dizer aos alunos: se você julgasse os grandes solistas com o mesmo rigor com que se julga, encontraria erros neles também. A busca pela perfeição pode paralisar. O desapego dela, paradoxalmente, pode libertar.
Música como matéria comum
Um dos momentos mais marcantes da conversa é quando Paulo fala sobre o que une todos os músicos. Para ele, não importa se você é violinista, flautista, compositor ou arquivista de partitura: todos estão lidando com a mesma matéria, a música. Essa perspectiva muda a forma de encarar qualquer função dentro de um ensemble.
Tocar segundo violino numa sinfonia obscura, com um maestro que você mal conhece, ainda é música. Ainda é aprendizado. Ainda é uma experiência que não se repete.
Paulo Galvão é o tipo de músico que aprendeu isso não em teoria, mas no ônibus de São Mateus para o centro de São Paulo, com o estojo no colo e o ensaio pela frente.
Ouça o episódio completo no YouTube: PAULO GALVÃO - Podcast do Violino Didático #060