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Paulo Paschoal: violino, polêmica e foco sem concessões

Podcast Violino Didático

Paulo Paschoal é uma das figuras mais comentadas no universo do violino brasileiro. Violinista da OSESP há 30 anos, spalla da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, criador da Camerata Darks e professor com alunos espalhados por vários países, ele acumula uma trajetória que poucos conseguem reunir. Jean de Oliveira o recebeu em Cotia para uma conversa franca, intensa e cheia de revelações.

A conversa começa com uma pergunta simples: o que você faz hoje? A resposta de Paulo vai longe. Ele fala de orquestra, de seus grupos musicais, de pilotagem de Fórmula 3000, de helicóptero, de direito. A sensação é de que não existe uma caixa grande o suficiente para caber tudo que ele faz.

Um músico que não aceita rótulos

Uma das primeiras coisas que Paulo deixa claro é sua relação com os diferentes estilos musicais. Para ele, a única coisa que merece respeito absoluto é a música. Isso significa tocar qualquer estilo sem preconceito, o que nem sempre agrada a todos.

Ele conta que certa vez foi convidado para tocar no carnaval, desfilando pela Águia de Ouro. Uma pessoa chegou a ameaçar demiti-lo se ele fosse. Paulo foi tocar assim mesmo. Hoje ele continua na OSESP. A pessoa, segundo ele, não está mais lá.

Essa postura explica em parte por que ele é visto como controverso. Em um meio que ainda cultiva fronteiras rígidas entre o erudito e o popular, Paulo simplesmente ignora essas divisórias.

A decisão de uma vida inteira aos 5 anos

Paulo vem de uma família humilde. Ele conta que, com apenas 5 anos, presenciou o pai chorando por dificuldades financeiras. Naquele momento, ele tomou uma decisão silenciosa: nunca mais permitiria que isso acontecesse, e o violino seria o caminho.

Foi uma promessa que ele fez a si mesmo sem palavras. E cumpriu. Todos os sonhos que teve na infância, incluindo pilotar carros de corrida e helicópteros, foram realizados com o dinheiro que ganhou tocando violino.

Essa origem moldou uma mentalidade de absoluta prioridade pelo trabalho. Paulo não chega a recomendar seu próprio modelo para todos, e Jean até levanta essa questão com cuidado. Mas o próprio Paulo reconhece que cada caso é diferente.

Foco radical: a regra que ele não abre exceção

Um dos trechos mais impactantes da conversa é quando Paulo fala sobre como lida com situações pessoais difíceis durante compromissos profissionais. Ele não foi ao casamento da irmã por causa de um concerto. Quando a avó faleceu, ele adiantou o sepultamento em uma hora para conseguir estar no ensaio à tarde. Quando a mãe passou por uma cirurgia de oito horas, ele foi ao hospital, organizou o que precisava ser organizado e voltou para o palco.

Jean questiona se esse nível de dedicação pode ser perigoso como exemplo para outras pessoas. Paulo concorda que não é uma fórmula universal. Mas reforça seu ponto: ele nunca diz “não consigo” ou “não posso”. Ele dá um jeito. Sempre.

A única exceção que ele admite é a filha. O resto, ele gerencia com pragmatismo.

A Camerata Darks e o olhar empresarial sobre a música

A Camerata Darks nasceu dentro do Instituto Baccarelli. Paulo criou o grupo originalmente para ajudar jovens músicos a gerar renda. Ele sempre teve, segundo suas próprias palavras, uma visão um pouco diferente do que significa ser músico.

Com o tempo, o projeto gerou ciúmes e ele acabou reformatando o grupo com colegas da OSESP. Hoje a Camerata Darks é um de seus projetos mais representativos e uma prova de que é possível unir rigor técnico com inteligência de negócios.

Essa visão empresarial aparece também no seu papel em Ribeirão Preto, onde ele ajuda a selecionar músicos para a orquestra. E ele é direto: imparcialidade total. Chegou a demitir a própria irmã quando ela se atrasou para um transporte coletivo da orquestra em que ele era spalla. Na banca de testes para músicos, ele simplesmente se retira quando há alguém próximo concorrendo.

200 lives, uma senhoria chamada Rosa e um repertório exclusivo

Durante a pandemia, uma aluna chamada Rosa Maria, de Barretos, pediu que Paulo gravasse um vídeo para ela. Ele não tinha costume de falar para câmeras, mas atendeu o pedido. A primeira live derrubou o celular. A segunda foi um pouco melhor. A terceira, um pouco mais.

O que veio depois surpreendeu até ele. Paulo tem um repertório de mais de 30 horas de música com arranjos feitos sob medida, nota por nota, apenas para ele. Durante a pandemia, ele começou a deixar o público escolher o que tocaria na live do dia seguinte. Ia anotando os pedidos em tempo real enquanto tocava, montava o repertório com sua arranjadora e voltava no dia seguinte com tudo pronto.

Ao chegar à 200ª live, o público organizou uma surpresa e levou flores até o evento em que ele estava tocando. Hoje ele tem alunos fora do Brasil que chegaram até ele por causa dessas lives.

Falar mal sem saber: um problema que Paulo não aceita

A conversa também toca em um ponto delicado do meio musical: a fofoca, a difamação e os comentários feitos sem fundamento. Paulo é direto. Já enviou cartas formais exigindo retratação de pessoas que espalharam informações falsas sobre ele. Em pelo menos um caso, a pessoa se retratou.

Ele fez três anos de faculdade de direito justamente para entender como as leis funcionam. Sabe que existem mecanismos legais para se defender e não hesita em usá-los quando necessário.

Para Paulo, o problema central é simples: as pessoas falam sem consultar, sem perguntar, sem confirmar. E o boato vira verdade. Ele deixa o recado claro: nunca proibiu ninguém de falar com ele. Se há dúvida sobre algo, basta perguntar diretamente.

Um violinista que escolheu o palco como lar

De família simples a spalla de orquestra profissional, Paulo Paschoal construiu uma trajetória baseada em três pilares: disciplina, pragmatismo e amor genuíno pela música. Ele tem uma carta escrita de próprio punho pelo maestro Eliazar convidando-o para solar com a OSESP. Guarda tudo em uma pastinha organizada. Mas raramente fala sobre isso.

O palco é o lugar dele. E quando está lá, nada mais importa.

Ouça o episódio completo no YouTube: PAULO PASCHOAL - Podcast do Violino Didático #091

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