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Peter Pas: o violista canadense que veio por 2 anos e nunca foi embora

Podcast Violino Didático

Peter Pas é violista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a OSESP. Canadense de origem belga e chinesa, ele veio ao Brasil em 1998 para um contrato de dois anos e, como ele mesmo diz, o segundo ano ainda não chegou. A conversa com Jean de Oliveira revelou uma trajetória cheia de acasos felizes, escolhas corajosas e uma visão sobre carreira musical raramente ouvida com tanta honestidade.

A entrevista aconteceu pespessoalmente em Cotia, cidade natal de Jean. Peter chegou tão tranquilo que dormiu no caminho, enquanto o próprio Jean confessou estar extremamente nervoso, nervoso a ponto de não conseguir dormir antes.

Da viola do arco à viola caipira: um engano clássico

Logo no início da conversa, Jean perguntou o que Peter faz com a música. A resposta veio direta: ele é violista. E não demora muito para aparecer o mal-entendido clássico que qualquer violista no Brasil conhece bem.

Quando Peter chegou ao país, ainda no fim dos anos 1990, a confusão entre a viola de arco e a viola caipira era constante. Ele conta que virou assunto de risadas muitas vezes, mas fazia parte do processo de se adaptar a uma nova cultura. Em uma das situações mais engraçadas que viveu, durante um edital de audição para viola na antiga IMESP, um senhor apareceu minutos antes do encerramento com uma viola caipira em mãos, pronto para fazer a prova. Como Peter ainda não falava bem português na época, coube ao colega explicar a situação. E, bem, a culpa não era do senhor: o edital falava em viola, sem mais especificações.

Festival de Itu e o emprego que veio de surpresa

A chegada de Peter ao Brasil tem um ponto de partida improvável: o Festival de Itu, cidade famosa pelas coisas gigantes. Jean não resistiu e fez a associação: o violinista veio da terra do violino grande. Viola grande, corrigiu Peter, entre risadas.

O festival tinha uma ligação forte com Elazar Carvalho, maestro que mantinha vínculos com a Universidade Yale, onde Peter estudava. Com a morte de Carvalho naquele ano, a esposa Sônia Muniz continuou o evento. Um jovem violinista de New Haven que ajudava a convidar professores chamou o mestre de Peter, que não pôde comparecer e o indicou no lugar.

Foi no festival que Peter conheceu o violinista Cláudio Cruz, o violinista Igor, Horácio e Alceu, que tocavam juntos como quarteto. Eles contaram sobre a reestruturação da OSESP, que estava prestes a realizar sua primeira prova aberta. Peter ficou uma semana a mais, fez a audição e voltou aos Estados Unidos com emprego garantido. Esperou um ano e meio e depois veio.

A meta que ninguém tinha coragem de colocar

Antes de vir para o Brasil, Peter participou de concursos para orquestras importantes nos Estados Unidos, incluindo Nova York, Chicago e Filadélfia. O processo era brutal: às vezes 80, 90 ou até 100 violistas altamente qualificados competindo por uma única vaga, com eliminatórias que duravam três dias.

O que ele disse sobre esse período merece atenção especial. Peter tinha uma meta clara: se desse o seu melhor e não avançasse, precisaria repensar para qual nível de orquestra estava tentando. Não era pessimismo. Era autoconsciência.

Jean ficou impressionado com essa postura. Normalmente, nas provas, a pessoa simplesmente aceita o resultado ou atribui o fracasso a fatores externos. Peter via diferente: se o melhor que tenho não é suficiente para entrar aqui, talvez minha autoestima esteja calibrada acima do que meu desempenho real justifica.

Mas ele também foi além. Explicou algo que funciona como uma aula sobre o mundo das orquestras profissionais: quando uma instituição tem 100, 150 anos de tradição, ela não quer contratar alguém para treinar. Ela quer uma pessoa que entre e toque do jeito que eles tocam, sem que ninguém precise corrigir ou orientar. E normalmente quem aprende esse estilo é quem faz aula com alguém que já está dentro da orquestra. Não porque seja favoritismo puro, mas porque é exatamente quem vai te ensinar a soar como eles esperam.

Suzuki com 3 anos e meio, numa cidade de campos de trigo

A história musical de Peter começa bem antes da OSESP. Ele nasceu no Canadá, filho de pai belga e mãe chinesa. A família foi morar em Saskatoon, cidade no interior do país, numa região que, segundo ele, não tem nada além de campos de trigo em três províncias inteiras.

Seu pai foi contratado para criar um departamento de estudos asiáticos na universidade local. A mãe, que mal falava inglês e não conhecia ninguém, viu na televisão um programa sendo criado com o método Suzuki. Inscreveu Peter no programa como forma de se integrar à comunidade, conhecer outras pessoas e dar ao filho uma atividade.

Foi assim que ele começou no violino com 3 anos e meio. A professora era japonesa, chamava Mariko, e as aulas seguiam o modelo Suzuki clássico: uma aula individual por semana, uma aula em grupo, e a mãe também aprendia para poder orientar em casa. Dois anos depois, o irmão entrou no programa. Depois, a irmã. Os três começaram, mas hoje apenas os dois mais novos tocam um pouco, em casa, por prazer.

O dia em que a viola fez mais sentido do que o violino

A transição para a viola aconteceu por volta dos 11 ou 12 anos, e teve uma razão muito concreta: Peter cresceu rápido na adolescência. O violino foi ficando pequeno demais para o corpo dele. Ele lembra de ter que encolher os ombros e dobrar o braço só para segurar o instrumento do jeito certo. Quando pegou uma viola pela primeira vez, tudo ficou mais natural, os braços se estendiam confortavelmente e a postura fluía sem esforço.

Além do conforto físico, havia o som. O timbre mais grave e encorpado da viola agradou Peter de imediato. E havia também um fator prático: orquestras jovens sempre estão procurando violistas. A demanda existia, o instrumento cabia no corpo e o som conquistou. Foi assim que a viola entrou na vida de Peter Pas e nunca mais saiu.

Um canadense em casa no Brasil

O que era para ser dois anos virou uma vida inteira. Peter se integrou ao país, à orquestra e à cultura de um jeito que vai muito além do contrato. A conversa com Jean mostrou alguém que faz parte do tecido musical brasileiro de uma forma genuína, com histórias que misturam o estranhamento de quem chegou de fora e a cumplicidade de quem ficou.

É uma trajetória que lembra, de formas diferentes, a mensagem central que Jean sempre defende: que a música encontra um jeito de chegar até quem a ama, seja numa cidade de campos de trigo no Canadá ou numa prova de viola aberta em São Paulo.

Ouça o episódio completo no YouTube: PETER PAS - Podcast do Violino Didático #058

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