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Rafael Cesario: violoncelo, conexão e música como linguagem

Podcast Violino Didático

Rafael Cesario é um dos nomes mais expressivos do violoncelo brasileiro. Integrante do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo há quase seis anos, ele também atua como convidado na OSESP e como professor particular. Mas para entender quem ele é como músico, é preciso voltar muito antes do violoncelo.

A conversa com Jean de Oliveira começou com leveza e muito humor, mas não demorou para chegar a um território profundo: o que realmente significa se conectar com a música.

Do violão ao choro: os primeiros acordes

Rafael cresceu em Santana de Parnaíba, no interior de São Paulo, numa casa onde o violão sempre esteve presente. Seu pai tocava de forma amadora, e esse contato natural com o instrumento abriu as portas da música para ele e para os irmãos.

Sua primeira música foi “Que País É Esse”, do Legião Urbana. Três acordes, sem pestana, com o Mi menor levantado. Simples assim, e já era o começo de tudo.

Com 8 ou 9 anos, ele passou a frequentar as aulas de Gilberto Freitas Correia, no centro cultural da cidade. Rafael descreve o professor com admiração genuína: uma energia incansável, daquelas que fariam qualquer um fazer música em qualquer lugar.

Foi nesse ambiente que ele mergulhou no choro, no bandolim e no violão de sete cordas. A musicalidade que carrega até hoje tem raízes ali, nessa fase que durou dos 9 aos 14, 15 anos.

O Quarteto da Cidade e uma história de 90 anos

Quando Jean perguntou sobre suas atividades atuais, Rafael foi direto: ele toca no Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, um corpo artístico do Teatro Municipal. É uma posição rara no cenário brasileiro.

O grupo foi fundado em 1935 por Mário de Andrade e é, de acordo com Rafael, o corpo artístico mais antigo do Municipal, anterior até à orquestra. No ano que vem, o quarteto completa 90 anos, e a temporada inteira será dedicada a essa celebração.

Rafael também mencionou sua passagem pela OSESP, onde atuou praticamente a temporada inteira de 2022 e continua sendo convidado com frequência. São dois universos que ele habita com naturalidade: a música de câmara como rotina e a orquestra como colaboração.

Música como religião e o conceito de Flow

Um dos momentos mais ricos da conversa veio quando o assunto virou filosofia musical. Rafael e Jean entraram num território que, segundo Jean, nunca tinha sido explorado assim em mais de 80 episódios do podcast.

A pergunta era simples: o que acontece quando a música realmente funciona? Rafael foi preciso: não é sobre tocar bem ou tocar errado. É sobre conexão.

Ele descreveu esse estado como um plano diferente. Um lugar onde a dor desaparece, o boleto some, a dor nas costas vai embora. A música como um êxtase, quase espiritual. Ele comparou com o conceito de Flow do filme “Soul”, da Pixar, e disse que essa conexão independe do nível técnico do músico.

Na visão de Rafael, quem está aprendendo violino em casa pode ter uma conexão tão intensa com a música quanto Yo-Yo Ma. O julgamento externo sobre quem toca melhor ou pior é irrelevante diante disso.

“A música te permite um nível de conexão que pode ser o mesmo para você, para mim, para o Naná Vasconcelos. Quem vai dizer que o Yo-Yo toca mais que você? É a crítica. E isso pouco me importa.”

Essa perspectiva ressoa diretamente com a mensagem do Violino Didático: todo mundo é capaz.

O palco em Londrina e a frase do André Mehmari

Rafael contou sobre um concerto em Londrina, na semana anterior à gravação, ao lado do pianista André Mehmari. Os dois têm uma parceria longa, dois discos gravados e muitas apresentações juntas.

Ao sair do palco naquela noite, Mehmari virou para ele e disse: “A gente tinha que ter gravado esse concerto.” Dois segundos depois, completou: “Mas talvez se a gente ouvisse depois, a gente não ia achar o que tá achando agora.”

Rafael usou esse episódio para ilustrar algo importante: o estado de conexão não é verificável de fora. Ele existe no momento. Quando o concerto acaba e você fecha a porta do hotel, vem até uma tristeza. Um saudosismo imediato de um lugar que você acabou de deixar.

Técnica como recurso, não como fim

Rafael também falou sobre o papel da técnica nesse processo. Ela é necessária, sim, mas como recurso. A técnica dá ferramentas para dizer o que você quer dizer. Ela não é o destino, é o caminho.

A música é, para ele, uma linguagem. E quando você pega qualquer frase musical, você está dizendo algo. Mesmo sem plena consciência disso, você está se expressando. Esse é o ponto de partida de toda a sua visão pedagógica.

Em vez de buscar a execução perfeita, que não existe, Rafael orienta seus alunos a buscarem a conexão com o discurso. Com o que aquela música quer dizer. Com o que aquele momento quer comunicar.

Músicos amadores e o papel transformador da música

Houve um momento na conversa em que Jean trouxe um tema recorrente no podcast: o papel dos músicos amadores no ecossistema musical. Rafael concordou com entusiasmo.

Se não fosse o pai dele tocando violão em casa de forma amadora, talvez nada do que veio depois tivesse acontecido. Seu irmão não seguiu na carreira musical, mas teve uma vida diferente por causa da música. E isso, para Rafael, já é suficiente.

Ele acredita que todo ser humano deveria ter contato com a música, independentemente de chegar a ser profissional. A transformação que ela provoca é real e profunda em qualquer circunstância.


Rafael Cesario chegou a Cotia depois de mais de uma hora de trânsito na Raposo Tavares. Saiu com uma conversa que vai durar muito mais que isso.

Ouça o episódio completo no YouTube: RAFAEL CESARIO - Podcast do Violino Didático #083

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