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Raphael Batista: do erudito ao popular e à conquista dos EUA

Podcast Violino Didático

Raphael Batista é um violinista de Uberlândia que construiu uma trajetória fora do comum. Depois de anos tocando em orquestras, mergulhou na música popular, virou produtor musical e foi conquistar o público nos Estados Unidos. Hoje, mora há quase oito anos por lá e segue dividindo sua vida entre os dois países.

Em conversa com Jean de Oliveira, Raphael contou como tudo isso aconteceu. Com muito bom humor, histórias surpreendentes e uma visão muito particular sobre o mundo da música, ele revelou que o caminho nunca foi planejado. Foi surgindo.

Uma família musical e um ouvido curioso desde cedo

Raphael cresceu num ambiente musical. Seu pai é violinista, sua mãe toca órgão na igreja e seu irmão aprendeu flauta. Desde cedo, ele tinha o hábito de tirar músicas de ouvido, sem partitura, só por curiosidade mesmo.

Seu pai notava esse talento e comentava com outros. Enquanto crianças da mesma idade seguiam a partitura, Raphael subia as posições explorando, tentando encontrar as notas sozinho. Essa liberdade com o instrumento foi se tornando uma marca do seu jeito de tocar.

Ele se profissionalizou pelo caminho clássico: estudou, fez audições e entrou em orquestras. Mas o ouvido curioso nunca parou de funcionar.

A virada para o popular veio pelo grupo Música Arte Fantástica, do pianista e produtor Thiago Rosa. Raphael já conhecia Thiago de uma orquestra universitária em Uberlândia, quando os dois tinham cerca de treze ou quatorze anos.

Quando Thiago precisou de um novo violinista para o grupo, chamou Raphael, que estava na Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. O convite chegou numa hora em que ele já sentia o cansaço da rotina orquestral: estudo intenso, programas pesados e uma sensação de pouco espaço para criar.

No grupo, Raphael conheceu o pianista Beto Machado, que trabalhava com gravação no computador. Ali, vendo o colega trabalhar com placa de áudio, controladores e produção digital, ele se encantou. Comprou uma placa de áudio sem saber direito como usar. Foi aprendendo na prática.

O vídeo que mudou tudo

A história que catapultou Raphael para outro patamar começa de um jeito bem simples. Sua esposa era fã da novela bíblica Os Dez Mandamentos, da Rede Record. Ela insistia tanto para ele gravar o tema da série no violino que, em algum momento, ele cedeu.

Gravou, postou no YouTube e esqueceu. Duas semanas depois, o vídeo tinha quase 300 mil visualizações. Ele achou que estava com problema na conta porque seus outros vídeos chegavam, no máximo, a 20 mil.

Pouco depois, um produtor da Record Musical entrou em contato pelo Facebook perguntando se era ele quem tinha gravado. Raphael achou que era brincadeira. Quando entendeu que era sério, mandou uma faixa gravada e recebeu um cachê pelo trabalho. Assim começou sua parceria com a emissora, onde trabalhou por quase dez anos.

Durante a conversa, Raphael fez uma comparação que surpreendeu até Jean. Segundo ele, a mentalidade de quem segue a carreira orquestral é parecida com a de quem presta concurso público: estuda muito, consegue a vaga e fica. Já quem trabalha no popular precisa pensar como empreendedor: buscar cachê, construir repertório, criar produto.

Ele não faz isso como crítica. Tem amigos em orquestras profissionais importantes que são muito felizes. Mas também conhece músicos frustrados, reféns do salário e do status, que sentem vontade de explorar outros caminhos e não sabem como dar esse passo.

A base erudita que nunca foi embora

Apesar de ter seguido o popular, Raphael é enfático sobre o papel da formação clássica. Para ele, o som que tira hoje vem diretamente da base que construiu nas orquestras. E menciona com gratidão o maestro Cláudio Cruz, que dirigiu a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto e o ajudou muito tecnicamente.

Ele conta que Cláudio chegou certa vez com Don Juan, de Richard Strauss, numa orquestra que, na opinião de Raphael, ainda não tinha nível para aquela obra. Mas tiveram que ter, porque o maestro exigiu. Essa pressão formou músicos.

Para ele, a discussão entre erudito e popular é um pouco falsa. Tocar violino é tocar violino. Você precisa puxar o arco corretamente, entender o ponto de contato, tocar afinado. A técnica é a mesma, não importa o gênero.

Nos Estados Unidos, entre o violino e a produção

Hoje, morando nos EUA há quase oito anos, Raphael dedica boa parte do tempo à produção musical. Segue tocando, mas o universo da criação e da tecnologia ocupa um espaço grande na sua rotina.

Ele veio ao Brasil direto de um show no Canadá, sem dormir, para gravar esse bate-papo. Só esse detalhe já diz bastante sobre o ritmo de vida que escolheu. E sobre o quanto valoriza o encontro com pessoas que pensam música de forma semelhante.

Um dos nomes que cita com admiração é o violinista conhecido como The Sharp, que Raphael acompanhou pela internet antes de descobrir que seriam vizinhos nos EUA e que hoje é um dos seus melhores amigos. Um músico que, por sinal, já ganhou um Grammy.

Uma trajetória construída na curiosidade

O que fica da conversa com Raphael Batista é a imagem de alguém que nunca deixou a curiosidade diminuir. Ele aprendeu a gravar sem saber o que era uma placa de áudio. Entrou em orquestra sem saber direito como funcionava uma audição. Gravou um vídeo para agradar a esposa e acabou numa grande emissora de televisão.

Nada foi linear. Tudo foi real.

Ouça o episódio completo no YouTube: RAPHAEL BATISTA - Podcast do Violino Didático #113

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