Reinaldo Renzo: o homem que afina o músico por dentro
Reinaldo Renzo não toca nenhum instrumento musical. Mas talvez seja uma das pessoas que mais entenda o que acontece dentro do músico quando ele toca. Especialista em Técnica Alexander, ele é descrito por Jean de Oliveira com uma definição certeira: “o cara que conserta o músico destruído”.
A conversa entre Jean e Reinaldo é uma dessas que começam em um lugar e terminam em outro completamente diferente, passando por teatro, arquitetura, Europa, distonia e a natureza do corpo humano. Um papo rico, generoso e cheio de reflexões que vão muito além da música.
De ator a arquiteto, sempre rodeado de arte
Reinaldo tem uma trajetória improvável. Formou-se como ator pela EAD, a Escola de Arte Dramática da USP, e trabalhou como ator profissional de teatro, cinema e televisão. Fez novela, filmes, e participou de produções como “Anjos da Noite”, que ele chama de “o melhor filme da década de 80”.
Paralelamente, também se formou em arquitetura e chegou a projetar casas. A arte, segundo ele, sempre esteve ao redor: a mãe pintava quadros, havia um piano em casa desde cedo, e a música popular brasileira, nas próprias palavras dele, “me formou”.
Esse percurso múltiplo não é uma contradição. É, na verdade, o fio condutor de tudo o que Reinaldo faz hoje.
A viagem de três meses que durou 20 anos
Trabalhou por anos no Centro Cultural São Paulo, cuidando da programação musical da Sala Adoniran Barbosa. Nessa época, o Centro era um dos únicos lugares onde músicos conseguiam acessar partituras físicas, especialmente de composições contemporâneas e brasileiras.
Após anos sem tirar férias, sua chefe o avisou: ou ele tirava as férias acumuladas ou as perderia. Reinaldo nunca havia ido à Europa. Decidiu ir por três meses. Ficou vinte anos.
Passou pela Inglaterra e pela Finlândia, onde também trabalhou. Essa distância do Brasil foi o começo de uma nova fase, que o levou, eventualmente, à Técnica Alexander.
O que é afinar o músico
A expressão que Reinaldo usa para definir seu trabalho é elegante e precisa: ele afina o músico. Não o instrumento, não a técnica, mas o próprio músico como ser humano.
A ideia, como Jean lembrou, também foi expressa pelo professor Paulo Búfalo em algum momento: os músicos passam a vida inteira afinando o instrumento e a técnica, mas raramente afinam a si mesmos, que são o instrumento principal.
É exatamente isso que a Técnica Alexander propõe trabalhar.
O que é a Técnica Alexander, afinal
Reinaldo explica com cuidado, mas sem entregar tudo de uma vez. A técnica foi desenvolvida por Frederick Matthias Alexander, um australiano do final do século XIX que também era ator. A história de Alexander tem origens curiosas: seus pais ingleses foram deportados para a Tasmânia durante a Revolução Industrial por se envolverem em revoltas por direitos trabalhistas.
A premissa central da técnica é que nascemos com uma naturalidade corporal que vamos perdendo ao longo da vida. Um bebê não comanda o corpo: ele simplesmente é o corpo. Com o tempo, conceitos, formação moral, padrões psicológicos e sociais vão moldando e tensionando esse corpo de maneiras que a pessoa nem percebe.
Como Reinaldo resume: “tudo que você faz, seja físico, mental ou espiritual, você transforma em tensão muscular”.
O paralelo com o que Jean aprendeu no Juilliard
Jean trouxe um exemplo pessoal que encaixou perfeitamente na conversa. Durante um curso de pedagogia do violino no Juilliard, uma das aulas era ministrada por um ator, não por um músico. Esse professor pedia que os alunos simplesmente deixassem o corpo fazer o movimento que quisesse fazer, sem preocupação com técnica ou estética.
Para Jean, foi estranho no começo. Mas é exatamente o tipo de exercício que a Técnica Alexander propõe: desativar o controle racional para reencontrar o movimento natural.
Reinaldo concordou e foi além. Ele citou a ideia da “couraça”: uma camada de tensão que o corpo desenvolve como proteção diante de um mundo que, nas palavras dele, “é perverso, cruel, tem um monte de coisa”. Não é simples nem fofo desfazê-la. E nem sempre é possível, ou mesmo desejável, desfazer tudo.
A arte como idioma primordial
Em um dos momentos mais bonitos da conversa, Jean conectou o que Reinaldo dizia com uma fala do professor Emmanuel Baldini, outro convidado do podcast. A ideia é que qualquer criança aprende a cantarolar antes de falar, e dança antes de andar.
A expressão artística, nesse sentido, é anterior ao idioma. É o corpo se comunicando antes de aprender as regras do mundo.
Reinaldo reforçou esse ponto com referências ao Feldenkrais, outro método de reeducação corporal, criado por um judeu que, curiosamente, teve aulas com o próprio Alexander. Um método dentro do outro, uma influência dentro da outra.
O que isso tem a ver com a distonia de Jean
Jean abriu a conversa mencionando que fez duas sessões com Reinaldo em um momento importante: quando buscava formas de lidar com a distonia focal, uma condição neurológica que afeta músicos e que interfere diretamente na sua capacidade de tocar.
As sessões fizeram sentido para ele naquele momento. Não como cura definitiva, mas como ferramentas sensoriais que ajudaram a encontrar caminhos para continuar tocando. Jean credita isso a um conjunto de abordagens: fisioterapia, Técnica Alexander e outras práticas de consciência corporal.
Essa abertura de Jean sobre sua própria condição torna a conversa ainda mais humana. Mostra que o tema não é abstrato: é urgente para quem vive de tocar.
Um encontro de mundos improváveis
O que torna Reinaldo Renzo um convidado tão singular é justamente a pluralidade do seu caminho. Ator, arquiteto, programador cultural, viajante, e agora especialista em um método que conecta corpo, mente e expressão.
Ele não é músico. Mas entende de música de um jeito que poucos músicos entendem: pelo avesso, pelo corpo, pela presença.
E talvez seja exatamente isso que falta em boa parte do ensino musical: alguém que olhe não para as notas, mas para quem está tocando.
Ouça o episódio completo no YouTube: REINALDO RENZO - Podcast do Violino Didático #052