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Renan Rodrigues: violino, Hungria e a busca pelo som perfeito

Podcast Violino Didático

Renan Rodrigues é o tipo de violinista que outros violinistas admiram em voz alta. Quem conhece seu trabalho sabe que o som que ele tira do instrumento tem algo de especial, uma qualidade difícil de nomear mas impossível de ignorar. Jean de Oliveira, ao recebê-lo no Podcast do Violino Didático, foi direto ao ponto: Renan tem um dos sons mais bonitos que ele já ouviu num violino.

Mas esse som não chegou por acaso. Por trás dele há uma história de bolsas internacionais, uma troca de festival no último momento, amizades húngaras e dois anos e meio vivendo em Budapeste, longe de tudo que era familiar.

Uma troca que mudou tudo

Em 2011, Renan se preparava para o concurso Jovens Solistas da Experimental quando recebeu uma ligação inesperada. Peter Pass, então coordenador da EMESP, ligou com uma proposta incomum: havia surgido uma vaga em um festival na Alemanha, em Pommersfelden, e o nome de Renan tinha sido indicado.

A história, porém, tomou um rumo ainda mais curioso. O colega Wellington Rebouças tinha sido indicado para outro festival, na Áustria, mas precisava trocar de data. Os dois combinaram uma troca simples: Renan foi para a Áustria, Wellington para a Alemanha. Uma decisão de minutos que acabou sendo o ponto de partida de tudo.

No festival austríaco, Renan fez amizade com um grupo de músicos húngaros. Um violista, em especial, se tornou um contato fundamental. Era amigo de violinistas reconhecidos na Hungria, como Barnabás Kelemen e Christopher Barrati, e foi quem abriu as portas para o que viria a seguir.

Budapeste no horizonte

A Hungria não estava nos planos de Renan antes desse festival. Era, nas palavras dele, um sonho distante. Ele cresceu ouvindo professores falarem sobre a Academia Franz Liszt, sobre o jeito húngaro de tocar, sobre a concepção de som daqueles violinistas. Mas sem informação concreta, o sonho ficava parado.

Foi a amizade com os húngaros que transformou esse sonho em projeto. Eles disseram: venha no ano que vem, faça a prova, a gente te ajuda. E Renan voltou do festival determinado. Conversou com a professora, traçou a meta e passou o ano seguinte se preparando.

Em 2012, viajou para Budapeste para fazer a prova de admissão na Academia Franz Liszt. O curso era de performance, uma extensão voltada para músicos com graduação anterior. Renan chegou uma semana antes, conseguiu fazer aulas com professores locais e foi ganhando clareza sobre o que o esperava.

O resultado oficial viria quase um mês depois. Mas Renan soube antes. Na conexão em Frankfurt, no caminho de volta, abriu as mensagens e encontrou um recado do amigo húngaro: pode voltar comemorando, você foi aprovado. A importância de ter bons contatos, como Jean observou na conversa, ficou clara nesse momento.

Dois anos e meio em outro mundo

Renan foi sozinho para Budapeste. Sem família, sem amigos próximos, com um único contato de confiança. As aulas eram em inglês, o que ajudava no ambiente acadêmico. Mas a cidade falava húngaro, um idioma praticamente sem parentesco com qualquer outro, e a vida cotidiana exigia uma paciência constante.

Ir ao mercado, resolver pendências num correio, lidar com um funcionário público mais velho: tudo se tornava um exercício de improvisação. Às vezes a paciência estava do lado dele, às vezes do lado do atendente, raramente dos dois ao mesmo tempo.

Essa imersão total foi o que transformou não só o violino, mas a pessoa. Renan descreve bem o que sentiu: estar cercado de músicos em alto nível, ser mais um na fila, sem o conforto de ser conhecido ou reconhecido. Você se depara com uma escolha simples e brutal: ou corre atrás, ou desiste.

Essa escolha, segundo ele, te força a olhar para os seus objetivos com mais honestidade. O que você veio buscar aqui? O que você quer da sua vida como músico? Perguntas que ficam abstratas quando tudo está confortável ganham peso real quando você está sozinho num país estrangeiro.

O som húngaro como busca

A meta de Renan em Budapeste não era técnica no sentido convencional. Ele não foi com o objetivo de tocar o Concerto de Paganini ou qualquer outro desafio virtuosístico específico. O que ele queria era entender, de perto e de verdade, como os violinistas húngaros concebiam o som.

Para ele, tocar as notas de um concerto é, em certa medida, a parte mais simples. O como você toca, a intenção sonora por trás de cada frase, essa é a questão central. E era exatamente isso que ele via naqueles músicos e precisava compreender melhor.

Essa busca pelo entendimento da concepção sonora húngara foi o fio condutor dos dois anos e meio em Budapeste. Ele diz, com humildade, que ainda está tentando até hoje. O que ficou não é uma resposta definitiva, mas uma transformação no modo de escutar, de pensar o instrumento e de buscar qualidade no próprio som.

Sobrevivência e networking

Para se manter financeiramente, Renan chegou a Budapeste com reservas que havia guardado durante os anos na Experimental. Ele já sabia, mesmo sem ter um destino certo, que algum dia iria estudar fora. Então foi planejando aos poucos.

Com o tempo, passou a trabalhar em orquestras de câmara locais. Os próprios professores da academia ajudavam nessa parte, indicando os alunos para oportunidades que surgiam. O networking, como Renan reconhece, faz parte do negócio da música. Sem uma rede de apoio num país estrangeiro, tudo fica muito mais difícil.

Hoje, de volta ao Brasil, Renan atua em diversas frentes. Dá aulas na Praça das Artes em Barueri, dentro de um projeto cultural da prefeitura, e toca como convidado em orquestras pelo país, incluindo a Sinfônica Municipal e a Filarmônica Bahiana. Jean brincou que ele parece onipresente no mundo do violino brasileiro, e Renan não negou.

A viagem que vale a pena fazer

A trajetória de Renan Rodrigues tem algo que vai além do violino. É uma história sobre o que acontece quando você decide ir buscar uma resposta em vez de ficar imaginando. Sobre como uma troca de festival, uma amizade inesperada e dois anos longe de casa podem mudar fundamentalmente quem você é como músico e como pessoa.

O som bonito que todo mundo comenta não veio de um talento misterioso. Veio de uma escolha deliberada de ir atrás do que ele queria entender, mesmo sem ter todas as certezas no começo.

Ouça o episódio completo no YouTube: RENAN RODRIGUES - Podcast do Violino Didático #106

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