Ir para o conteúdo

Renata Jaffé: 50 anos do método que formou violinistas no Brasil

Podcast Violino Didático

Há nomes que atravessam décadas e deixam marcas profundas na música brasileira. Renata Jaffé é um desses nomes. Violinista, professora e agora psicóloga, ela é a herdeira e guardiã de uma metodologia que completa 50 anos em 2024 e que, segundo Jean de Oliveira, é responsável por formar cerca de 70% dos violinistas do Brasil.

A conversa com Renata foi densa, generosa e cheia de histórias. Filha de músicos, criada num ambiente onde a música era tão natural quanto ir à escola, ela carrega uma trajetória que começa no Rio de Janeiro dos anos 70 e chega até os dias de hoje, com formação em Psicologia e um olhar cada vez mais refinado sobre o ensino musical.

Uma família que inventou algo novo

O pai de Renata era violinista e tocava em todas as orquestras do Rio de Janeiro que existiam nos anos 70. Sua mãe era pianista e professora. Juntos, eles criaram algo que, segundo Renata, não existia em lugar nenhum do mundo na época: um método coletivo para os quatro instrumentos de cordas ao mesmo tempo, desde o primeiro dia de aula.

A semente surgiu de uma prática simples. O pai reunia todos os seus alunos uma vez por mês para uma aula conjunta, uma brincadeira coletiva. Não era ainda um método, era intuição. Mas quando um aluno se destacou num programa de televisão apresentado pelo maestro Isaac Karabtchevsky, a visibilidade trouxe uma oportunidade concreta: o Dr. César Pompeu, então presidente do SESI de Fortaleza, queria replicar aquele trabalho para os filhos dos comerciários do Ceará.

Foi aí que o pai de Renata, com formação também em engenharia, começou a pensar matematicamente. Se um professor demora dez anos para formar quarenta alunos individualmente, com uma taxa de sucesso de cerca de 10%, o que aconteceria se fosse possível ensinar todos ao mesmo tempo? A resposta foi o Método Jaffé.

Violino, viola, violoncelo e contrabaixo: juntos desde o início

Um detalhe fundamental distingue o Método Jaffé de quase tudo que existe: ele não funciona com apenas um instrumento. Ele é estruturado para que violino, viola, violoncelo e contrabaixo sejam ensinados simultaneamente, em grupos de 25 a 40 alunos, com pelo menos dois professores.

Começa em uníssono, mas em cerca de um mês já deixa de ser. A partir daí, as vozes se separam e nunca mais voltam a ser idênticas. Isso significa que fazer o método só com violinos, por exemplo, simplesmente não faz sentido pedagógico. A estrutura foi pensada para quatro vozes, e é essa polifonia desde cedo que dá ao método sua identidade.

Renata explica que os arranjos do método foram todos tirados dos grandes compositores clássicos: Brahms, Beethoven, Tchaikovsky, até Czerny. Tudo construído à mão, testado na prática, ajustado ao longo dos anos. Sem internet, sem fóruns, sem referências fáceis de acessar.

Uma metodologia espiral

Para explicar como o método avança, Renata usa uma imagem bonita: a da brincadeira infantil em que se nomeia frutas em sequência, voltando sempre ao início, mas acrescentando algo novo. O método Jaffé funciona assim, em espiral.

Ele avança, retorna ao mesmo ponto de partida, e exige um pouco mais do aluno a cada volta. O cotovelo, a posição do arco, a afinação: tudo vai sendo refinado em camadas. Quando o aluno volta a um conteúdo já visto, está mais preparado para entendê-lo com mais profundidade. A ideia foi fortemente influenciada pelo Projeto Espiral, do qual o pai de Renata também foi fundador.

Do SESI ao Pão de Açúcar

Depois de Fortaleza, o método foi crescendo. Renata foi aos Estados Unidos aprender com seu pai, depois voltou ao Brasil e começou a aplicar o trabalho por conta própria. Uma apresentação no Teatro Municipal de São Paulo chamou atenção do então senador Eduardo Suplicy, que trouxe a Veja São Paulo para fazer uma reportagem.

A repercussão chegou até o Pão de Açúcar, que estava montando seu instituto social e havia feito uma pesquisa com os 110 mil funcionários do grupo sobre o que gostariam de ver oferecido para os filhos no contraturno escolar. Música ficou em segundo lugar. O Instituto Pão de Açúcar se tornou então o maior palco do Método Jaffé por anos, até o projeto ser encerrado, para tristeza de Renata.

Formar professores é a missão de hoje

Com o Instituto Pão de Açúcar encerrado, Renata redirecionou suas energias. Hoje ela dá poucas aulas particulares, formou-se em Psicologia e já atua como terapeuta há quase cinco anos. Mas a música não saiu da vida dela: seu foco principal agora é a formação de professores.

Ela viaja para Curitiba regularmente para ministrar cursos e está trabalhando na documentação mais formal do método. Essa preocupação não é à toa. Renata vê com muita clareza o que acontece quando uma metodologia é aplicada sem a devida formação, comparando com quem diz aplicar Suzuki apenas porque comprou o livro. O método existe em três volumes, disponíveis inclusive para download gratuito, mas Renata é enfática: sem a formação do professor, o livro sozinho não resolve.

Um legado que completa 50 anos

O que começou em 1974, numa ideia pioneira de um violinista engenheiro no Rio de Janeiro, chega a 2024 como um dos maiores legados do ensino musical brasileiro. Renata Jaffé carrega esse legado com cuidado, com rigor e com a consciência de quem sabe que o trabalho de uma família pode transformar milhares de vidas.

Ela é a prova de que música e psicologia podem caminhar juntas. E que a melhor forma de honrar um método é garantir que ele seja ensinado da forma certa, por professores bem formados, para crianças que merecem o melhor.

Ouça o episódio completo no YouTube: RENATA JAFFÉ - Podcast do Violino Didático #129

Continue lendo