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Ricardo Herz: o violinista que criou uma linguagem popular brasileira

Podcast Violino Didático

Ricardo Herz é uma figura singular na música brasileira. Violinista formado na tradição erudita, ele construiu ao longo de 20 anos uma linguagem própria no violino popular, misturando choro, forró, samba, valsa e improvisação jazzística de um jeito que, segundo Jean de Oliveira, ninguém havia feito antes dele no Brasil.

A conversa aconteceu em Cotia, cidade natal de Jean e endereço do estúdio do Violino Didático. Ricardo chegou sem cerimônia, com histórias, risadas e o violino pronto para tocar a qualquer momento.

Ricardo veio da escola clássica. Foi aluno de Elisa Fukuda, uma das professoras mais respeitadas do Brasil, e carregou toda aquela formação quando decidiu mergulhar na música popular ainda no colegial.

O problema: não havia referências claras de como fazer isso no violino. Não existia um método, não havia violinistas brasileiros construindo uma linguagem rítmica e expressiva para o gênero, pelo menos não da forma que ele buscava.

“Como se toca violino popular?” era uma pergunta sem resposta pronta. Ricardo foi descobrindo no caminho, ouvindo rabequeiros, imitando o bandolim, prestando atenção nos instrumentos de raiz e tentando transportar tudo isso para o seu instrumento.

O garfinho, o ritmo e a identidade sonora

Um dos momentos mais animados da conversa foi quando Ricardo explicou, ao vivo, o que chama de “garfinho”: uma célula rítmica típica do forró e do choro formada por uma semicolcheia, uma colcheia e outra semicolcheia. Ele pegou o violino e tocou ali mesmo, no meio da entrevista.

Esse ritmo foi uma das primeiras coisas que ele buscou incorporar ao violino quando começou a tocar música popular. Sem referência de outros violinistas fazendo isso, foi na intuição e na escuta atenta que ele chegou ao jeito próprio de executar a figura.

Depois de já ter desenvolvido essa técnica, ele descobriu Fafa Lemos, um violinista famoso nas rádios brasileiras dos anos 30 e 40, que tocava junto com o compositor Garoto e o acordeonista Chiquinho do Acordeão. A descoberta veio tarde, mas reforçou que havia uma tradição, mesmo que esquecida, de violino popular no Brasil.

Outro tema central da conversa foi a rabeca. Para Ricardo, a rabeca não é apenas um instrumento parecido com o violino: ela é o violino popular brasileiro por excelência.

Ele explicou que “rabeca” era, até o início do século 20, o próprio nome do violino em português. No Conservatório de Lisboa, o curso se chamava “curso de rabeca”. Partituras do Barroco mineiro trazem a indicação “rabeca 1” e “rabeca 2” onde hoje leria “violino”.

A rabeca que conhecemos hoje, aquela de construção mais rústica usada no forró e no sertão, é brasileira e não tem um padrão único de construção. Cada lutier faz do seu jeito: com cabaça, com ou sem alma, com quatro ou cinco cordas, com formas que imitam o violino ou que seguem uma estética própria.

Uma das afinações mais difundidas é a chamada “afinação pernambucana”, popularizada pelo mestre Luiz Paixão, referência máxima da rabeca nordestina. Ricardo a descreveu como uma quarta abaixo do violino, começando em Ré, Lá, Mi, Lá a partir da corda mais grave.

Van, a rabequeira francesa que veio por amor ao instrumento

A história da companheira de Ricardo, Van, é um dos relatos mais tocantes da conversa. Francesa, ela estudou jazz mas sentia que o ambiente dos conservatórios era pesado demais, sério demais, distante da alegria que procurava na música.

Num festival na França, ela viu brasileiros tocando rabeca e forró. Aquela relação descontraída, festiva e expressiva com o instrumento foi exatamente o que ela buscava. Ela veio ao Brasil antes mesmo de conhecer Ricardo, movida pela rabeca. Acabou ficando.

A busca dela também era por um som mais grave. A rabeca com afinação pernambucana entregou exatamente isso: um instrumento com personalidade, sonoridade encorpada e uma liberdade de construção que o violino moderno não oferece.

Três violinistas, três continentes

Ricardo lançou seu primeiro disco em 2004. No mesmo ano, o violinista franco-brasileiro Nicolau de Figueiredo, que morava na França, lançou o dele tocando música brasileira em Paris. Enquanto isso, Ricardo estava em São Paulo tocando forró e MPB.

Os dois nunca tinham se cruzado, mas um amigo em comum já os conectava indiretamente. Quando o disco de Nicolau saiu no Brasil, Ricardo foi convidado para o show de lançamento. A amizade nasceu ali e segue até hoje.

Juntos com um violinista popular americano, eles criaram o projeto “Três Violinos, Três Continentes”, que incluiu shows em Recife e outras cidades. Cada um com uma linguagem completamente diferente, mas todos apostando no violino como instrumento da música popular.

11 álbuns e um Proac no bolso

No momento da gravação, Ricardo preparava seu 11º álbum solo, em trio com piano e bateria. Fábio Leandro no piano, Pedro Ito na bateria e composições inteiramente autorais.

O projeto conta com o apoio do ProAC, prêmio que ele ganhou no ano anterior. Faz 20 anos que Ricardo lança discos, e em praticamente todos eles a composição própria ocupa papel central.

Além dos discos, ele mantém uma rotina intensa de gravações em casa, principalmente publicidades que precisam de violino ou rabeca. Ele brinca que o setup é simples: dois canais, sem complicação, e funciona.

Uma viagem ao Ceará e as tradições vivas

Pouco antes de gravar o podcast, Ricardo tinha voltado de uma viagem ao interior do Ceará com Van e uma amiga francesa. Eles pousaram em Juazeiro do Norte e dirigiram por mais seis horas rumo ao interior, até chegar a Cachoeira do Fogo, distrito de uma pequena cidade chamada Independência.

O destino tinha um motivo específico: uma tradição de violino popular ainda viva e vibrante naquela região. Ele mal havia chegado de volta quando apareceu no estúdio de Jean, ainda cheio das impressões da viagem.


Ricardo Herz é prova de que o violino popular brasileiro tem história, tem raízes e tem futuro. Mais do que um instrumentista, ele é um pesquisador que toca, um compositor que escuta e um artista que construiu sua linguagem sem esperar que alguém escrevesse o caminho para ele.

Ouça o episódio completo no YouTube: RICARDO HERZ - Podcast do Violino Didático #009

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