Robinho Carmo: do Baccarelli à OSESP passando pela Suíça
Robinho Carmo tem o mesmo sobrenome do famoso jogador de futebol, mas o seu campo é outro: as cordas do violino. Contratado pela OSESP, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, ele chegou a esse posto depois de oito anos estudando na Suíça, passando por conservatórios em Lausanne e Genebra. A trajetória é de quem não esperou as portas se abrirem, mas foi bater nelas, mesmo sem saber o idioma do país.
Jean de Oliveira recebeu Robinho no estúdio em Cotia para uma conversa franca sobre caminhos, escolhas difíceis e os perrengues inevitáveis de quem decide levar o violino a sério.
Do Baccarelli para a Europa
Tudo começou no Instituto Baccarelli, onde Robinho estudou por quatro ou cinco anos. No último ano, a vontade de estudar fora cresceu. Surgiu uma oportunidade nos Estados Unidos, na Universidade de Azusa, com o professor Nathan Cole. Mas quase ao mesmo tempo, ele se inscreveu também no Conservatório de Lausanne, na Suíça.
Foi fazer a prova em Lausanne, se apaixonou pelo país e decidiu ficar. Para financiar a viagem, durante o último ano no Baccarelli, guardou metade da bolsa que recebia, mês a mês, com disciplina. Contou também com ajuda de pessoas que viram sua seriedade e apostaram nele.
Depois de um ano em Lausanne, sentiu que não estava evoluindo como esperava e tomou uma decisão ousada: tentar o Conservatório de Genebra, com o professor Gilles Apap. O detalhe: não havia vaga para bacharelado, apenas duas vagas para mestrado. Robinho foi assim mesmo.
O resultado surpreendeu até ele: o professor criou uma vaga de bacharelado especialmente para recebê-lo. Jean resumiu bem o raciocínio: o pior que poderia acontecer era continuar ouvindo não. E se a tentativa der certo, você passa cinco anos em Genebra.
Sem saber francês e sem documento do violino
Um detalhe que chama atenção na história de Robinho é que ele foi fazer a prova em Lausanne sem falar francês. A cidade é francófona, e a prova exigia domínio do idioma. Ele foi assim mesmo, como ele mesmo define: sendo brasileiro.
Hoje ele fala francês com fluência. Mas naquela época, era tudo na base da coragem e da insistência. Muita gente não sabe, mas vários brasileiros estudaram nos maiores conservatórios da Europa simplesmente porque tinham preparo técnico e foram bater na porta.
Ter ou não o idioma, ter ou não a vaga confirmada: esses detalhes vieram depois. Primeiro, a tentativa.
Um dos perrengues mais marcantes que Robinho contou foi justamente em uma viagem pela Europa. Ele estava indo da Suíça francesa para a Suíça italiana, com conexão pela Itália. Na chegada a Milão, foi barrado pela polícia: estava sem documento do violino. Ele não falava italiano, os policiais não falavam francês. Horas parado, perdeu a conexão e teve que pagar a volta.
O episódio abriu um assunto importante: a necessidade de ter um documento oficial que comprove a propriedade e o valor do instrumento antes de qualquer viagem internacional. Jean reforçou o ponto a partir da própria experiência e de anos trabalhando no ateliê do luthier Rogério Fagundes. Um notário de confiança pode ajudar a emitir esse documento, ou profissionais especializados em instrumentos musicais, como o próprio Rogério em São Paulo.
O acidente com um violino de 200 anos
A conversa chegou a um momento emocionalmente pesado. Jean contou sobre um acidente que aconteceu com o seu violino de 200 anos de idade, o mesmo que está exposto no estúdio.
Ele voltava de um cachê com uma orquestra de São José dos Campos. Estava dentro de um ônibus, com o violino nas costas, passando pela catraca, quando uma moto da polícia fechou o veículo. O ônibus freou bruscamente, Jean foi arremessado contra a estrutura metálica e caiu de costas.
O case era um Gewa, resistente, mas o impacto foi forte demais. Ele abriu e encontrou o tampo do violino trincado de ponta a ponta. Chorou muito. Tentou buscar seus direitos, mas foi aconselhado a não perder tempo nem dinheiro com a disputa. A saída foi levar o instrumento para restauro.
É o tipo de história que qualquer violinista teme. E que mostra como um instrumento pode ser, ao mesmo tempo, ferramenta de trabalho e algo com profundo valor afetivo.
A vida nas orquestras e a música de câmara
Na Suíça, além do estudo formal, Robinho teve bastante contato com a música de câmara e com recitais. Também tocou em orquestras de cachê, um modelo diferente das orquestras fixas: cada concerto monta seu próprio conjunto de músicos, sem vínculo permanente.
Esse modelo existe no Brasil também, com menos frequência. A diferença é que na Europa a proximidade entre países facilita muito a mobilidade dos músicos. Da Suíça, Robinho chegou a morar três meses na França enquanto estudava em Genebra, a apenas 30 minutos de distância. Cruzava a fronteira todos os dias para ir à escola.
Agora de volta ao Brasil, ele está na OSESP, uma das orquestras mais importantes da América Latina. O percurso de Cotia até lá passou por Geneva, por Lausanne, por Milão, por aeroportos com escalas de 28 horas e por um violino trincado num ônibus lotado.
Uma trajetória feita de tentativas
O que fica da conversa com Robinho Carmo é a imagem de um músico que nunca esperou condições ideais para agir. Não sabia o idioma: foi. Não havia vaga: foi mesmo assim. Não tinha dinheiro sobrando: guardou a metade que tinha.
Essa disposição de ir, mesmo sem garantia de resultado, é o fio que conecta cada etapa da sua história. E é também o tipo de postura que transforma um estudante do Baccarelli em membro da OSESP depois de anos formado nos melhores conservatórios da Europa.
Ouça o episódio completo no YouTube: ROBINHO CARMO - Podcast do Violino Didático #059