Rodrigo Marin: da igreja em Guarulhos ao ensino de violino
Rodrigo Marin cresceu em Guarulhos com um violino em casa e, por muito tempo, não deu a menor bola para ele. Seu pai tocava desde antes de ele nascer, a família frequentava uma igreja com orquestra, mas o instrumento ficava ali, na paisagem. Carrinhos, aviões e desenhos ocupavam muito mais a cabeça do jovem Rodrigo.
Foi um presente inesperado que mudou o rumo da história. Aos 13 anos, um parente lhe deu um violino, e a curiosidade falou mais alto. Para quem sempre gostou de construir, desmontar e experimentar, o novo instrumento virou um brinquedo a ser descoberto.
Os primeiros passos dentro da congregação
Sem condições de pagar um professor particular, Rodrigo encontrou na Igreja Congregação o caminho natural para começar a aprender. As igrejas do movimento, como ele explica, têm centros que ensinam instrumentos gratuitamente, com professores voluntários passando o conhecimento adiante. O objetivo é simples: formar músicos para tocar no culto.
Ele aprendeu o que havia para aprender ali. E com relativa facilidade. Tão logo absorveu o básico, já começava a ensinar outros membros da congregação. Mas algo o incomodava: certos músicos que circulavam por ali tocavam de um jeito completamente diferente. Havia mais emoção, mais profundidade, mais técnica. E ele queria aquilo.
Foi num ensaio na Igreja Central de Guarulhos que a ficha caiu de vez. Um músico tocava arpejos de Vivaldi e o som ecoava pelas paredes sem tratamento acústico do salão, criando um efeito quase mágico. “Eu quero tocar isso”, pensou Rodrigo. Simples assim.
O conservatório que parecia distante e estava logo ali
Ao descobrir que um dos professores da congregação estudava no conservatório de Guarulhos, Rodrigo ficou intrigado. A instituição parecia algo grandioso e inacessível, reservada a quem tivesse um dom especial. Mas a realidade era outra: o conservatório ficava a menos de um quilômetro da sua casa.
Ele tentou entrar ainda aos 17 anos, mas não conseguiu vaga para violino naquele ciclo. Sua irmã entrou para piano. Ele precisou esperar mais um ano. Quando finalmente passou, aos 18, foi um choque de realidade bem-vindo: o que parecia avançado dentro da congregação era apenas a superfície do que o violino tinha a oferecer.
Isso é mais comum do que parece, como Rodrigo e Jean de Oliveira discutiram na conversa. Quando se está num ambiente onde você é o melhor, cria-se a falsa impressão de ter chegado num nível alto. O conservatório desfez essa ilusão rapidamente. “Eu não sabia nada”, ele admite sem cerimônia.
Vivaldi, xerox e CDs com 100 métodos
Estudar violino no início dos anos 2000 era uma aventura logística. Não havia banda larga, o acesso à informação era restrito e os materiais circulavam em cópias de cópias. Rodrigo lembra com humor de um CD que continha 100 métodos de violino, tratado na época como um tesouro raro. “Nossa, você tem 100 métodos”, alguém dizia, impressionado.
Sua primeira professora no conservatório foi a Shandilowski, com quem estudou brevemente antes de ela se mudar para o Paraná. Depois de um período sem professor de violino disponível na instituição, Rodrigo acabou estudando com Renato Kutner, que logo chegou ao quadro docente.
A trajetória foi marcada por idas e vindas, trancamentos de matrícula e retornos. Sem professor de violino, voltava-se às aulas teóricas. Com professor novo, reiniciava-se a fila. Era assim que funcionava o conservatório público naquela época.
Entre carros e violino, uma escolha que demorou a se definir
Paralelamente ao conservatório, Rodrigo cursou desenho industrial numa faculdade particular em Guarulhos. Desde criança ele desenhava, criava brinquedos com caixas de papelão e arame, e tinha fascínio por carros. A abertura das importações nos anos 90 havia deixado marcas profundas no imaginário do garoto.
Ele chegou a fazer estágio numa empresa de ônibus em Guarulhos, sonhou com a USP e chegou a prestar o vestibular para design. Ficou muito próximo da nota de corte na Fuvest, mas não passou. O desânimo bateu forte.
Nesse momento de incerteza, com 20 e poucos anos, sem saber muito bem o que queria da vida, o violino ainda não se apresentava como uma escolha profissional. A crença de que “não era bom o suficiente”, de que músico era coisa para quem nascia com dom, segurava qualquer ambição maior na área.
O nível intermediário que não existe de verdade
Um dos momentos mais instigantes da conversa com Jean surgiu justamente dessa experiência de Rodrigo. A questão do “nível intermediário” no violino, tão citada por alunos em fóruns e redes sociais, na prática não existe de forma objetiva.
Rodrigo explica bem: se o objetivo é tocar hinos na igreja, ler partitura e executar o repertório litúrgico já pode ser considerado intermediário, ou até avançado naquele contexto. Se o parâmetro for o repertório erudito completo para violino, provavelmente a maioria dos que se chamam de intermediários ainda está no início.
A referência muda tudo. E a trajetória de Rodrigo ilustra isso com precisão: o que parecia muito dentro da congregação era iniciante no conservatório. O que era avançado em Guarulhos ficava atrás do padrão da EMESP ou de Tatuí. O contexto define o nível, e reconhecer isso é parte essencial do crescimento como músico.
Uma história que ainda estava começando
A conversa com Jean mostra um Rodrigo Marin que foi construindo sua relação com o violino de forma orgânica, sem um plano claro, tropeçando em algumas escolhas e se reencontrando no caminho. A falta de recursos financeiros, a ausência de internet e a crença limitante de que profissionalismo dependia de dom inato foram obstáculos reais na sua trajetória.
Mas o violino foi ficando. E o professor que aprendia por conta própria, ensinava na congregação ainda adolescente e se encantava com Vivaldi ecoando em paredes nuas acabou encontrando seu lugar no instrumento. Hoje ele é professor e compartilha esse percurso com quem está trilhando os primeiros passos.
É exatamente o tipo de história que o Violino Didático gosta de contar: não a do gênio predestinado, mas a de quem foi aprendendo com o que tinha, onde estava.
Ouça o episódio completo no YouTube: RODRIGO MARIN - Podcast do Violino Didático #004