Rogério Fagundes: o lutier brasileiro formado em Cremona
Rogério Fagundes é um dos nomes mais relevantes da luteria brasileira. Sobrinho do artista Antônio Nóbrega, ele começou a construir rabecas aos 16 anos e, anos depois, foi estudar no Instituto Internacional Antonio Stradivari, em Cremona, na Itália. A trajetória dele é uma das mais fascinantes já contadas no Podcast do Violino Didático.
A conversa com Jean de Oliveira revelou um profissional que une sensibilidade musical, rigor técnico e uma curiosidade genuína pelas madeiras e pela física do som. Rogério não é apenas alguém que faz violinos. Ele pensa profundamente sobre cada escolha, da espécie da árvore ao corte da tábua.
De Curitiba à rabeca: uma família cheia de música
Rogério nasceu e cresceu em Curitiba. Sua mãe toca piano e iniciou todos os seis filhos no instrumento. A ideia, bem-humorada, era ter um quarteto ou quinteto dentro de casa. O plano não saiu exatamente como previsto, mas a música nunca saiu da família.
O contato com a rabeca veio pela figura do tio Antônio Nóbrega. Pesquisador das tradições populares brasileiras, Nóbrega sempre esteve muito presente na vida de Rogério. Ao ver o tio tocar, o jovem quis aprender também. Procurou uma rabeca para comprar e acabou encontrando um curso de construção do instrumento. Ali, algo mudou.
“Quando eu fiz o curso, senti como se umas portas se abrissem”, ele descreveu. A construção falou mais alto do que a performance. E, naquele mesmo ano, Antônio Nóbrega apresentou Rogério a um lutier formado em Cremona. A decisão de vida foi tomada aos 16 anos: ele começaria a estudar italiano para um dia ir à Itália.
Aprendizado com grandes lutiers brasileiros
Antes de partir para a Europa, Rogério passou por uma formação sólida no Brasil. Começou com Élso Fomin, lutier formado em Tatuí, com quem trabalhou por cerca de um ano. Em seguida, passou aproximadamente três anos e meio com Luiz Amorim, sempre com o objetivo firme de chegar a Cremona.
Esse período foi essencial. Rogério chegou à prova de admissão do Instituto Stradivari com bagagem suficiente para entrar diretamente no terceiro ano do curso de cinco anos. Menos tempo, mas sem queimar etapas.
A prova de admissão em Cremona
A seleção para o Instituto não era simples. Era preciso ir até a Itália presencialmente para uma semana de provas. Havia testes de italiano escrito e oral, tecnologia da madeira e dois dias de prova prática.
A parte prática consistia em construir um espelho de violino a partir de um bloco de madeira bruta. Não era um exercício simbólico: era construção real, com técnica e conhecimento demonstrados na hora.
Rogério passou. E a experiência de estudar no berço dos grandes construtores foi, nas palavras dele, “um presente que a vida me deu”.
O que é, afinal, um lutier?
Durante a conversa, Jean abriu espaço para Rogério explicar o termo que muita gente usa sem saber sua origem. Lutier vem do francês e deriva de “luto”, instrumento renascentista parecido com o alaúde. Os construtores desse instrumento ficaram conhecidos como luthiers, e o nome acabou se expandindo para todos os construtores e restauradores de instrumentos de cordas.
Hoje, o termo é usado por músicos de diversas áreas, de guitarristas a flautistas. Rogério pontuou que, tecnicamente, o lutier não é só quem constrói: é também quem ajusta e restaura. E a maioria dos músicos vai ao lutier justamente para ajuste, não para encomenda.
A ciência por trás da madeira
Um dos momentos mais envolventes da conversa foi quando Rogério explicou por que determinadas madeiras são usadas na construção de violinos há mais de 500 anos. A resposta tem tanto de engenharia quanto de estética.
O abeto, usado no tampo do violino, é a segunda madeira do mundo em velocidade de propagação do som. Só perde para a balsa, que não tem resistência estrutural suficiente. O abeto, por outro lado, é leve e resistente ao mesmo tempo. Um tampo completo pesa entre 69 e 73 gramas, e ainda assim suporta cerca de 12 kg de pressão das cordas e do arco.
“É uma engenharia muito perfeita”, ele resumiu.
Já o ário, conhecido como maple, além de sua função acústica, traz o famoso flameado que define a estética visual do violino. Para Rogério, esse é um dos encantos da luteria: beleza e funcionalidade andando juntas.
Ele também comentou sobre os cortes da madeira. O corte radial, do centro à extremidade do tronco, é o mais utilizado na confecção dos violinos. O tangencial, quando os veios correm paralelos à superfície da tábua, tem outras aplicações. Cada escolha afeta o comportamento acústico do instrumento.
Tocar ajuda a construir?
Jean fez uma pergunta direta: tocar violino influencia o trabalho de construção? A resposta de Rogério foi imediata: sim, com certeza.
Ele não se apresenta como violinista profissional, e reconhece que não tem tempo para estudar com esse nível de dedicação. Mas sempre está tocando. E essa prática faz diferença especialmente no setup final do instrumento: a altura das cordas na pestana, o ajuste do cavalete, a posição da alma. São escolhas que envolvem sensibilidade auditiva, e quem toca tem uma vantagem real nesse processo.
Instrumentos raros e o que impressiona um lutier
Quando Jean perguntou quais instrumentos históricos Rogério já teve a chance de manusear, o lutier foi cuidadoso. Stradivari e Guarneri ele já pôde examinar, mas não chegou a restaurá-los. No período em que trabalhou no atelier Morassi, teve acesso a instrumentos de alto nível e realizou ajustes em alguns deles.
O nome que ele destacou como fora do radar comum foi o Ruggieri. Não é um luthier desconhecido para especialistas, mas muitos violinistas nunca ouviram falar. Para Rogério, trabalhar com um instrumento desse calibre foi uma experiência marcante.
Um lutier que pensa no futuro
Rogério hoje mora na Aldeia da Serra e trabalha na nova sede da Luteria Fagundes. Seus filhos já convivem com o universo musical: o mais novo tem o violino dele, e a mais velha está pedindo um violoncelo. A família musical continua crescendo.
A escolha de não economizar na qualidade da madeira é uma marca do seu trabalho. Ele não usa madeira inadequada para reduzir custo. Para ele, o instrumento começa ali, na árvore certa, cortada do jeito certo.
É essa combinação de origem, rigor e paixão que faz da trajetória de Rogério Fagundes uma das histórias mais completas já contadas neste podcast.
Ouça o episódio completo no YouTube: ROGERIO FAGUNDES - Podcast do Violino Didático #049