Ir para o conteúdo

Samuel Mello: violino, trajetória e inspiração musical

Podcast Violino Didático

Uma amizade que começou em Bragança Paulista

Há encontros que mudam a forma como a gente enxerga um instrumento. Para Jean de Oliveira, um desses encontros aconteceu em 2008, num festival de música em Bragança Paulista.

Naquela época, Jean confessa que não tinha a menor vontade de tocar em orquestra. Era algo distante, fora dos planos. Até que ele viu Samuel Mello no palco, de espalda para a plateia, conduzindo a orquestra com uma energia que mudou tudo.

“Nossa, eu preciso tocar em orquestra. E vou tocar do jeito que esse cara toca.” Essas foram as palavras do Jean ao rever a cena. Ele nem sabia o nome de quem estava vendo.

Os festivais como catalisadores da vida musical

Samuel também tem sua própria história de festivais. Antes de Bragança Paulista, ele havia passado por Poços de Caldas, onde recebeu um ultimato do professor da época: se não fosse para um festival, a relação chegaria ao fim.

Ele foi. Gostou. E voltou diferente, mas com um problema inesperado: passou a aplicar o que havia aprendido com a professora Elisa, o que gerou um atrito com o professor anterior. O resultado foi a separação.

Festivals têm esse poder duplo: abrem portas e, às vezes, fecham outras. Para Samuel, foi o início de um novo ciclo.

A professora Elisa e o suor que transforma

A professora Elisa é uma figura que aparece com destaque na conversa. Antes de chegar ao festival de Poços de Caldas, o professor de Samuel pintou um quadro assustador dela: rigorosa, exigente, difícil.

Quando Samuel entrou na sala dela e começou a aula, pensou: “Meu Deus, estou lascado. Essa mulher vai me matar.” Foi maravilhoso.

Elisa não era o monstro da lenda. Era uma professora que sabia exatamente o que fazer com cada aluno. A técnica começou a funcionar. As coisas se encaixaram.

Jean tem uma história paralela com a mesma professora. Em 2020, levou duas alunas, Clara e Giovana, para tocar para Elisa em Poços de Caldas. Ficou quase vomitando de nervoso, com medo irracional de que o ambiente de aprendizado que havia construído com as meninas fosse destruído numa única aula.

Não foi. Elisa fez comentários positivos, as alunas saíram felizes, e Jean percebeu: os monstros vivem na nossa cabeça.

O Bragança de 2008 e a primeira conversa

De volta ao festival que os uniu: Samuel chegou em Bragança Paulista num ônibus da Orquestra Estadual Zinha, que ia tocar na abertura do evento. Aproveitou a carona para economizar na passagem de ida, um detalhe que ele conta com bom humor.

Lá, estudou com a professora Ana de Oliveira. Aprendeu, tocou, se conectou com o ambiente musical forte que Bragança sempre teve. E foi nesse contexto que Jean, impressionado com o que havia visto, quis conversar.

A conversa demorou para acontecer, os dois ficaram naquela de “a gente se fala”. Mas quando rolou, mudou algo nos dois.

O rádio que virou bom dia na internet

Uma das coisas que Jean diz ter copiado de Samuel é o hábito de postar, todo dia de manhã, uma saudação nas redes: “Senhoras e senhores, bom dia.”

Samuel explica a origem disso com simplicidade. Desde criança, ele gostava de brincar de rádio. Gravava em fitas VHS, imitava locutor da CBN, sonhava com narradores. A internet veio como extensão natural desse gosto.

A ideia era simples: quando alguém abrisse a rede social pela manhã, encontraria algo bom esperando por ali. Não um bom dia genérico jogado no feed. Uma saudação real, com intenção, como se houvesse alguém do outro lado de verdade.

E havia.

Métodos raros e o tesouro escondido do violino

A conversa entra num território que vai interessar muito a qualquer violinista: os métodos de estudo. E aqui Samuel e Jean concordam com uma intensidade rara.

O nome que aparece com mais força é Garnett Jost, autor do sistema que Samuel chama de “o maior tesouro já escrito para o violino”. O livro é técnico, direto, sem enfeites. Exercícios esmiuçados, sem melodia para disfarçar a dificuldade.

O próprio Jost escreve no prefácio que um violinista mediano, estudando seu sistema por três anos, estará tecnicamente apto a tocar qualquer coisa do repertório. Samuel acredita nisso. O difícil, ele admite, é a consistência ao longo desses três anos.

Samuel guarda algo especial: os originais de primeira edição de todos os livros de Jost. Foram impressos numa gráfica nos Estados Unidos pelo próprio filho do autor. Segundo esse filho, foi a primeira vez que os livros foram enviados ao Brasil.

Samuel pode ser o primeiro brasileiro a tê-los em casa.

Dunes, Iost e a nutrição do estudo

Foi o próprio Jean quem apresentou a Samuel o método Dunes, em cópias xerox quase ilegíveis, num livro de independência dos dedos que Jean descreve como expressionista de tão borrado.

O exercício em questão é complexo: um dedo preso, outro articulando em semicolcheias, outro fazendo extensões para frente e para trás, e o último fazendo pizzicato, tudo ao mesmo tempo. Samuel tentou fazer e teve dor de cabeça de verdade, não metaforicamente.

Já o método Iost, para Samuel, tem uma característica marcante: ele não esconde a habilidade mínima necessária atrás de uma melodia bonita. Ele coloca a técnica ali, nua, sem disfarce. Pode parecer árido. Mas funciona como um peso de academia: simples, direto, eficaz.

A metáfora que Samuel usa para o estudo é a da nutrição. Você precisa de variedade. Proteína, carboidrato, cada coisa com sua função. No violino, é a mesma lógica: diferentes métodos treinam diferentes habilidades, e a consistência é o que transforma tudo.

Constância que vence intensidade

Quase no final da conversa, Samuel menciona um projeto pessoal: tem emagrecido com consistência. Desde 2020, já perdeu mais de 20 quilos. Nos últimos meses de constância no exercício físico, foram mais 10.

Ele usa a mesma expressão que usa para o violino: constância vence intensidade.

Não é o dia em que você pratica quatro horas que define o violinista. É o dia em que você pratica quinze minutos e volta no dia seguinte. E no seguinte. E no seguinte.

É uma filosofia que Jean também defende. É, aliás, a base do Violino Didático.

Uma inspiração que dura décadas

A conversa entre Jean e Samuel tem o peso de duas pessoas que se influenciaram de verdade ao longo dos anos. Não é elogio protocolar de podcast. É história compartilhada, com datas, lugares e detalhes que só quem estava lá pode contar.

De Bragança Paulista em 2008 até este episódio gravado em 2024, muita coisa mudou. Mas a essência que Jean viu naquele palco continua: Samuel Mello é alguém que toca com energia real e pensa sobre música com profundidade.

Ouça o episódio completo no YouTube: SAMUEL MELLO - Podcast do Violino Didático #016

Continue lendo