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Svetlana Tereshkova: escola russa e vida no Brasil

Podcast Violino Didático

A russa mais brasileira do violino

Se você já ouviu Svetlana Tereshkova tocar, sabe que há algo diferente no jeito como ela se relaciona com o instrumento. Professora, violinista da OSESP e integrante do quarteto Art Artet, ela carrega na bagagem décadas de formação pela escola russa mais rigorosa que existe.

Jean de Oliveira a recebeu no Podcast do Violino Didático e logo de cara quis saber o que todo mundo sempre quis: como pronunciar o sobrenome. “Tereshkova”, ela respondeu com calma, e completou: é o mesmo sobrenome de Valentina Tereshkova, a primeira mulher cosmonauta a ir ao espaço. “E minha irmã foi chamada Valentina em homenagem a ela”, contou, sorrindo.

De Moscou a São Paulo: um tsunami da vida

Svetlana nasceu na Crimeia, região quente o suficiente para registrar 45 graus no verão. Estudou no Conservatório Tchaikovsky, em Moscou, e chegou ao Brasil no final de 2001, sem nenhum plano prévio.

Tudo começou com um músico brasileiro chamado Heitor, que havia estudado na Rússia e voltou para o Brasil cheio de saudade dos amigos russos. Ele começou a convidar colegas. Algumas violinistas que Svetlana conhecia já tinham ido. “A Olga tá lá, a Luba tá lá. Ok, eu vou também”, disse ela, com a leveza de quem claramente nunca teve medo de aventura.

Ela define o próprio estilo assim: “Eu sou um pouco de ir com facão na frente, abrindo a mata para a galera.” Foi com esse espírito que trocou o inverno de Moscou, com seus 40 graus negativos, pelo calor de São Paulo.

O que é a escala russa completa

Um dos momentos mais reveladores da conversa foi quando Jean perguntou sobre o processo seletivo do Conservatório Tchaikovsky. Svetlana descreveu a exigência central: a escala russa completa.

Não é uma escala comum. É um sistema que cobre o espelho inteiro do violino, com arpejos maiores, menores, de sétima aumentada, notas duplas em terças, sextas, oitavas e décimas. Tudo isso com variações de arco: détaché, spiccato, martelé, viotti, tudo. “Quando era criança, já era exigido todo esse esquema com todos os golpes de arco”, explicou.

O processo começa gradual. Quando o aluno sai das cordas soltas e aprende um pouco da primeira posição, já começa com uma oitava. No final do primeiro ano, pode estar fazendo escalas de duas oitavas. Mas o esquema completo vai se instalando aos poucos, sempre em paralelo com estudos e repertório.

Postura antes de tudo: a lição do prédio

A escola russa tem uma prioridade clara: estabilizar a postura e a liberdade técnica antes de qualquer outra coisa. Svetlana contou que, no sistema russo, se um aluno entrar no conservatório com problemas posturais, pode passar um ano inteiro trabalhando só isso. Sem música de câmara, sem repertório avançado. Só postura.

Para explicar o porquê, ela usou uma imagem arquitetônica que ficou gravada na memória: “Se o seu fundamento é sólido e reto, você pode construir um arranha-céu que ele não vai cair. Se a base está torta, a partir de certo andar ele desmorona.”

O mesmo vale para o violino. Um aluno pode progredir com problemas técnicos até certo ponto. Mas quando o repertório exige mais, os erros gritam. Não tem jeito.

Jean concordou e reforçou o ponto com sua própria experiência: tocar em grupo muito cedo pode ser prejudicial, porque a atenção se divide e os hábitos técnicos corretos não se estabilizam. A visão de Svetlana é a mesma: “O método russo zela pela estabilização da postura e pela liberdade técnica acima de tudo.”

Sempre fui cavadora

Há algo no jeito de Svetlana pensar que vai além da técnica. Jean perguntou quando ela começou a pensar de forma mais crítica sobre o violino. A resposta foi direta: “Sempre.”

Ela se define em inglês como uma digger, uma cavadora. “Eu sempre quis cavar mais, entender mais, fazer um zoom total das coisas.” Quando não esperava que alguém a ensinasse, ia atrás sozinha, usando lógica, observação e escuta ativa.

Um hábito que chamou a atenção foi o de observar colegas tocando, não para criticar, mas para aprender. “Eu escaneava, no sentido de captar o que a pessoa estava fazendo bem.” Enquanto muitos olham para o colega e pensam “esse arco está baixo” ou “essa afinação está torta”, ela preferia perguntar: “O que essa pessoa está fazendo que eu posso aprender?”

E completou: “A gente pode aprender com os dois lados. O que fazer e o que não fazer.”

O capricho que a quebrou, e o que cresceu depois

Quando Jean perguntou sobre apresentações difíceis, Svetlana foi honesta. Ela escolheu o Quarto Capricho de Ernst, uma das peças mais tecnicamente brutais do repertório violinístico, cheia de extensões e mudanças de posição extremas.

Seu professor olhou para ela e, nas palavras dela, “sabia que eu ia me quebrar”. E de fato aconteceu. Mas ela não se arrepende. “Eu cresci muito nele. Então valeu a pena.”

Isso resume bem a mentalidade dela: o desafio técnico não é inimigo, é combustível.

Entrar na onda certa

O trecho mais poético da conversa veio quando Jean perguntou sobre o momento de performance que ela mais gostou. Svetlana falou sobre um recital em que a galera ficou impressionada, e ela explicou por quê aquilo funcionou.

“Para mim, o mais importante no palco é entrar na onda certa. O flow mental, emocional, espiritual.” Não é sobre tocar tecnicamente perfeito. É sobre transmitir a mensagem artística de forma fluente, sem artificialidade.

Ela descreveu a performance como uma relação entre três: ela, o público e algo mais, uma inspiração que vem de algum lugar que a gente nem sempre domina. “Às vezes, quanto mais você amadurece, mais você entende isso.”

Para quem acompanha Jean e a filosofia do Violino Didático, essa visão ressoa direto: tocar violino é técnica, sim, mas é também conexão. Com o instrumento, com quem ouve, com algo maior.

Uma carreira construída com raízes profundas

Hoje, Svetlana equilibra a agenda da OSESP com o quarteto Art Artet, formado em 2017 e originalmente criado como grupo feminino. Com o tempo, o grupo se abriu e hoje conta também com Kimal, violista dinamarquês que passou a chefiar o naipe de violoncelos da OSESP.

Do calor da Crimeia ao calor de São Paulo, da tradição oral da escala russa às salas de concerto brasileiras, a trajetória de Svetlana Tereshkova é a prova de que o violino une mundos que, no mapa, parecem distantes.

Ouça o episódio completo no YouTube: SVETLANA TERESHKOVA - Podcast do Violino Didático #056

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