Thiago Brisolla: violino, choro e educação criativa
O violinista que veio do bandolim
Thiago Brisolla tem uma história que começa de um jeito que poucos esperariam: com um bandolim nas mãos e o choro no coração. Antes de qualquer contato com o violino, ele já frequentava a IMESP estudando o instrumento de palheta, mergulhado no universo das rodas de choro e samba.
A virada veio quando descobriu um detalhe técnico curioso: o bandolim e o violino têm exatamente a mesma afinação. A partir daí, ganhou um violino do pai, ouviu uns vinis de Mozart que um vizinho lhe presenteou, e começou a experimentar. Mas a meta nunca foi a sala de concertos. Era o choro, sempre o choro.
Começar “tarde”: o estigma que precisa acabar
Quando Jean perguntou sobre como Thiago iniciou no violino, a conversa tocou num ponto sensível para muita gente: a ideia de que existe uma idade certa para começar.
Thiago foi direto: pegou o violino pela primeira vez com 11 ou 12 anos, mas considera que começou de verdade aos 21, quando passou a estudar de forma séria e estruturada. E ele não esconde o peso que esse número pode carregar no universo clássico.
Para quem almeja uma vaga em grandes orquestras, a janela de entrada costuma ser até os 8 anos. Quem começa com 30, diz Thiago, não está fadado ao fracasso; só tem uma conta diferente a fazer. Com disciplina e tempo, é possível chegar longe. Ele mesmo citou o exemplo de um aluno que começou aos 14 anos, evoluiu de forma impressionante e hoje faz mestrado com um dos grandes nomes do violino internacional.
Mas a conclusão é clara: essa lógica de “passou da hora” é um estigma. Em arte, mais do que em qualquer outra área, tentar encaixar todo mundo numa caixa é um erro.
Da engenharia à música: o caminho que não era o caminho
Antes de mergulhar de vez no violino, Thiago passou por um período turbulento. Fez curso de engenharia elétrica, primeiro na UNESP de Guaratinguetá e depois na Unicamp. Foram seis meses difíceis. Ele sabia que não se encaixava ali, mas ainda não tinha clareza sobre o que queria de fato.
O bandolim estava sempre presente, as rodas de choro também. Só que o caminho tradicional de um bandolinista, como ele mesmo observa, é muito específico: rodas de choro e samba, festivais pontuais, pouca margem para outras direções. Essa limitação também pesou na hora de repensar a trajetória.
A decisão de prestar o bacharelado em violino na USP foi quase um salto no escuro. E rendeu um momento memorável logo na entrevista do vestibular.
A resposta que mudou tudo
Sua professora e mentora, Elan Toch, uma figura que ele descreve com carinho enorme, quase como uma segunda mãe, o alertou antes da entrevista: o curso da USP não contemplava música popular no violino.
Thiago não hesitou. Respondeu que não via diferença entre música popular e qualquer outro repertório.
Ela parou. Pensou. E disse: “É, de fato, acho que não tem mesmo.”
Ele passou. E a partir daí, construiu uma trajetória que mistura rigor acadêmico com liberdade criativa, tocando jazz, violino popular brasileiro e hoje ensinando crianças de um jeito que vai muito além do que o nome “aula de violino” sugere.
A EMIA: onde o violino dança junto
Thiago é artista educador na EMIA, a Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo. E o que ele conta sobre o lugar derruba qualquer ideia de conservatório tradicional.
A escola atende crianças de 5 a 12 anos com uma proposta radicalmente diferente: multidisciplinaridade real, professores especializados em gravura, cerâmica, bordado, dança, teatro e música, tudo no mesmo espaço, muitas vezes na mesma aula.
Thiago regeu a orquestra infanto-juvenil da escola e dá aulas de violino, viola e cordas coletivas. Mas o formato mais revelador é o das aulas compartilhadas: ele divide a sala com uma professora de dança, e as crianças aprendem violino e movimento corporal ao mesmo tempo. Não separados, juntos.
Algumas aulas chegam a ter quatro professores de áreas diferentes presentes com quinze crianças. O resultado, segundo ele, é que o plano de aula nunca se repete. Cada semestre exige criação nova, abordagens novas, arte de verdade sendo produzida com e pelas crianças.
Horizontalidade em sala de aula
O que mais chama atenção na forma como Thiago fala da EMIA é o conceito de horizontalidade. O professor não está num nível hierárquico muito acima do aluno. Ele é mediador, mas também está permeável às propostas das crianças.
Essa ideia, que pode soar abstrata, tem resultados concretos. Alunos que chegam com 5 anos, às vezes explosivos demais ou tímidos demais, terminam o ciclo com 12 anos transitando por áreas criativas com desenvoltura. A escola, na definição dele, é sobretudo uma escola de criatividade.
E esse modelo ressoa diretamente com a forma como Thiago pensa o violino: não como um instrumento de uma única tradição, mas como uma voz que pode falar em muitas línguas.
Violino popular brasileiro e jazz
No palco, Thiago se situa claramente no violino popular brasileiro e no jazz. Sua formação passou por orquestras, como a OSUSP e a Orquestra da UCAN, e ele guarda boas memórias dessas experiências. Mas o que faz seu coração cantar, nas próprias palavras dele, é outro repertório.
Essa escolha não é por falta de preparo técnico. É por convicção artística. E ela se reflete também no modo como ensina: não existe linguagem musical superior a outra. Choro, samba, jazz e Mozart ocupam o mesmo espaço de respeito.
Um bancário que toca violino, ou o contrário?
No começo da conversa, Jean o apresentou como violinista e gerente de banco. A combinação surpreende, mas faz sentido dentro de uma trajetória que nunca seguiu um único trilho.
Thiago é alguém que aprendeu a navegar entre mundos diferentes: a engenharia que não era o caminho, o bandolim que virou violino, o clássico que virou popular, a sala de aula que virou ateliê de criatividade. Cada desvio foi, na verdade, uma afinação mais precisa.
O que fica dessa conversa
A história de Thiago Brisolla é um lembrete de que os caminhos mais interessantes raramente são os mais lineares. Começou com palheta, virou arco. Começou no choro, chegou ao jazz. Quase foi engenheiro, virou artista educador.
E em cada etapa, carregou a mesma convicção: não existe diferença que justifique hierarquia entre as músicas. O violino fala todas as línguas. Basta ter coragem de deixá-lo falar.
Ouça o episódio completo no YouTube: THIAGO BRISOLLA - Podcast do Violino Didático #066