Thiago Rosa: violino, improvisação e identidade musical
Thiago Rosa é um daqueles músicos que desafia categorias. Violinista formado na tradição erudita, ele construiu uma carreira sólida na música popular, com ênfase especial em improvisação. Para Jean de Oliveira, do Violino Didático, Thiago é “um dos grandes profissionais do violino que faz uma coisa diferente e toca bem os dois lados”. É um elogio sincero para quem transita com naturalidade entre mundos que, no Brasil, ainda costumam se olhar com desconfiança.
A conversa entre os dois foi rica, bem-humorada e cheia de reflexões que valem para qualquer violinista, seja iniciante ou experiente.
Mas afinal, o que é improvisação no violino?
A primeira provocação de Jean foi direta: como funciona a improvisação? Thiago explica com clareza que improvisar não é simplesmente “tocar qualquer nota e ver o que acontece”. Improvisação tem necessariamente a ver com criação. Quando você improvisa, você está compondo instantaneamente, em tempo real.
A confusão é comum. Muita gente acha que basta pegar o arco e sair tocando. Thiago deixa claro que existe método, existe técnica, existe um caminho a seguir. E esse caminho foi justamente o que ele escolheu ensinar.
Para ilustrar, ele falou sobre a famosa escala pentatônica, que Jean definiu, arrancando risadas, como “a escala do preguiçoso”: ao invés de sete notas, você usa cinco. A graça da pentatônica é que ela remove justamente as notas mais sensíveis da escala, aquelas que não funcionam bem sobre todos os acordes. O resultado prático: qualquer nota que você tocar dentro da pentatônica vai soar bem, sem precisar pensar muito. É um recurso útil, especialmente quando você perde o fio da meada no meio de uma improvisação.
Mas Thiago faz uma ressalva importante: se a pentatônica for o único recurso, a música fica enjoativa. A escala é um ponto de partida, não o destino.
Da ULM à Orquestra Jovem Tom Jobim
Thiago começou seus estudos na ULM, a Universidade Livre de Música, hoje conhecida como EMESP Tom Jobim, a mesma escola onde Jean também estudou. Coincidência que os dois descobriram durante a conversa, com bom humor.
Sua primeira professora na ULM foi Teresa Schnorrenberg, a quem ele se refere com carinho como “Teresinha”. E foi ela quem deu um dos puxões de orelha mais importantes da sua formação: Thiago não escutava música. Ele pegava a partitura e tocava, sem nunca ter ouvido aquela obra antes. Sem referência alguma.
A crítica da professora fazia todo sentido. Como você vai tocar Mozart sem nunca ter escutado Mozart? Você toca sem personalidade, sem entender as possibilidades, sem saber onde pode respirar, acelerar ou se emocionar. Thiago admite que, na época, sua principal referência musical era a trilha sonora das faxinas da mãe, que incluía Molejo.
Foi também por influência da Teresinha que ele ingressou na Orquestra Jovem Tom Jobim, a chamada “Dezinha” pelos músicos. A ideia da professora era expor Thiago a um repertório que não havia sido composto pensando no violino. Músicas criadas para saxofonistas, para sopros, para uma sonoridade completamente diferente. Para um violinista acostumado ao conforto do Vivaldi, onde tudo parece encaixar perfeitamente nos dedos, foi um choque produtivo.
Por que escutar muita música faz toda a diferença
Um dos temas mais ricos da conversa foi justamente este: a importância de ouvir ativamente. Thiago defende que escutar uma única gravação de uma obra pode ser até prejudicial. Você corre o risco de virar uma cópia daquela interpretação.
O ideal é ouvir várias versões, de épocas diferentes, de estilos diferentes. Ele dá um exemplo fascinante: pegue as Sonatas e Partitas de Bach tocadas por quatro ou cinco violinistas distintos e compare. Parecem músicas diferentes. Se você for mais fundo e comparar gravações de violinistas dos anos 40 com violinistas de hoje, a diferença é ainda maior.
São essas referências múltiplas que permitem ao músico construir uma identidade própria. Sem elas, você não sabe nem quais são as possibilidades. Você toca, mas não criou ainda uma voz sua.
Jean reforçou o ponto a partir de sua experiência como educador: incentivar o aluno a ouvir aquilo que vai estudar é um dos gestos mais eficientes que um professor pode ter. Não para que o aluno copie, mas para que ele entenda o universo daquela música antes de mergulhar nela.
O preconceito que ele mesmo teve e depois superou
Thiago é honesto ao contar que, no início, tinha preconceito em relação à música popular. Violinista erudito, estudando repertório clássico, a ideia de tocar samba no violino soava estranha. Ele mesmo admite: ficou “meio assim” quando a professora sugeriu a Orquestra Jovem.
Mas foi exatamente essa experiência de sair da zona de conforto que abriu os caminhos que ele percorre até hoje. A improvisação, a música brasileira, o jazz, o choro: tudo isso entrou pela porta que ele quase não quis abrir.
Curioso é que, como Jean observa, esse preconceito ainda existe nos dias de hoje, só que invertido. Hoje é mais comum ouvir “tocar samba no violino, que legal” do que torcer o nariz. Mas a resistência em cruzar fronteiras ainda aparece, de um lado ou do outro.
Uma conversa que vale para todo violinista
O que fica desta conversa é que a trajetória de Thiago Rosa tem muito a ensinar, independentemente do estilo que você escolheu. A importância de ouvir música ativamente, de buscar múltiplas referências, de não se fechar em uma única tradição e de entender que improvisação é criação, não acaso: esses são aprendizados universais.
Thiago construiu uma identidade musical sólida porque esteve disposto a se desconfortar. E é justamente essa disposição que o torna um músico singular.
Ouça o episódio completo no YouTube: THIAGO ROSA - Podcast do Violino Didático #014