Tom Beneducci: violino, country e uma vida pela música
Tom Beneducci é uma das referências do violino country no Brasil. Com uma trajetória que mistura orquestras, bandas sertanejas e agenciamento de músicos, ele carrega uma história rica, honesta e cheia de reviravoltas. Jean de Oliveira recebeu Tom em Cotia para uma conversa longa e descontraída, que revelou muito sobre quem é esse violinista de Guarulhos.
A conversa começou com o trânsito de São Paulo, que consumiu mais de uma hora do caminho de Tom até o estúdio. Mas logo o papo esquentou, e valeu cada minuto.
Da rua à Igreja, e da Igreja ao violino
Tom cresceu em Guarulhos, numa família da Assembleia de Deus. Era um moleque que adorava futebol, fliperamas e as brigas de rua típicas da infância em bairros populares. Ele descreve a si mesmo como “alucinado, coisa de moleque normal”.
Foi sua tia quem mudou tudo. Cansada de vê-lo voltando para casa com a boca estourada, ela o levou para a Igreja numa tarde de sábado. Um casal da congregação dava aulas de violino. O professor colocou o instrumento nas mãos do menino de 9 anos e perguntou se ele queria aprender.
A resposta foi sim. E foi imediata.
“Quando eu comecei a fazer corda solta, eu não sei te explicar. Arrepio. Falo até hoje”, contou Tom. Foi amor à primeira vista, sem exagero. A partir daquele dia, a rua ficou para trás.
O violino de aniversário que não esquece
O pai de Tom apostou no filho desde cedo. Mesmo sem muito dinheiro, fez questão de incentivar o menino. A prova maior dessa aposta veio em forma de surpresa no dia do aniversário de Tom.
Ele voltou da escola, viu o carro do pai parado em frente de casa e achou que algo tinha dado errado. Nem havia se lembrado que era seu aniversário. O pai o chamou para o quarto, e lá estava: uma caixona de violino, marrom, pintadinho.
“Eu só lembro de ter chorado e abraçado meu pai”, disse Tom com emoção. O pai tirou o dinheiro de pouquinho em pouquinho do salário, abriu mão de comer na rua, levava marmita para economizar. Era o violino do filho que valia mais.
Com 14 anos, já em orquestra
A evolução de Tom foi rápida. Com 14 anos, já tocava em orquestras jovens e acompanhava bandas. Ele menciona com carinho o maestro Paulo Maron e o violinista Emiliano Patarra, que o chamou para fazer parte da orquestra de cordas da ULM mesmo sem Tom estudar lá.
Foi nessas experiências que ele aprendeu o valor de tocar ao lado de músicos mais experientes. “Quando você toca perto da galera que tem experiência, te puxa”, refletiu. E ele foi puxado para cima, sem medo, com aquela mentalidade de quem acha natural ocupar o espaço que conquistou.
Jean compartilhou sua própria memória de estreia em orquestra, numa apresentação da Primeira Sinfonia de Mahler em Guarulhos. A conversa rendeu risadas e reflexões sobre o medo de errar em público, um tema que os dois conhecem bem.
Country music e o violino que faísca
Com 14 anos, Tom recebeu um chamado inusitado. Uma amiga, Raquelzinha, estava montando uma banda country no Parque Secap, perto de Cumbica, e precisava de alguém que improvisasse. Ela indicou Tom, que não fazia a menor ideia do que era country music.
Os músicos da banda, o guitarrista Pardal e o cantor Andy, gostaram do que ouviram. Tom foi convidado a entrar. Para se preparar, recebeu um CD. A primeira música era de Garth Brooks: “The Callin’ Baton”, que já começa com violino estralando.
“Eu falei: que porra é essa?”, lembrou Tom, rindo. Logo veio Alan Jackson. E mais Garth Brooks. Naquele momento, Tom não sabia quem eram essas pessoas. Mas sabia que queria aquilo.
Ele descobriu depois que Garth Brooks é o maior vendedor de discos do mundo, superando Elvis e os Beatles. Para Tom, não foi surpresa. O violino já havia dito tudo antes das estatísticas.
Texas Hammer e um disco gravado em inglês
A carreira de Tom no universo country e sertanejo passou por muitas bandas e artistas. Ele cita colaborações com duplas conhecidas, como Fernando e Sorocaba, e uma longa trajetória ao lado da banda Texas Hammer, referência de country music na América Latina.
A Texas Hammer passou por uma transformação recente, migrando para o chamado agro rock, um formato que está em alta no Brasil. Tom foi parte da gravação do novo trabalho da banda, chamado “Breaking Borders”. O álbum foi gravado em inglês, uma decisão estratégica baseada em dados.
Mais de 85% do público da banda está nos Estados Unidos e na Europa. O Brasil aparece apenas na décima posição entre os países que mais consomem o conteúdo. O estado de São Paulo é o que menos ouve entre todos. “Por incrível que pareça”, comentou Tom, com um sorriso.
De músico a agente, de agente a noivados
Hoje, além de tocar, Tom administra uma empresa de eventos musicais. Ele distribui músicos para restaurantes em São Paulo, como o Hanover Fondue, e cuida de casamentos e eventos corporativos.
É um caminho que mistura gestão, relacionamentos e a experiência acumulada de anos no mercado. “Muitas reuniões com noivos e com pessoal do corporativo, que é de onde vem a melhor parte”, disse ele, com a franqueza que marca toda a conversa.
A trajetória de Tom mostra que a carreira de um músico raramente tem uma forma fixa. Ela se adapta, se reinventa e, nas mãos certas, se transforma em algo sustentável.
Uma conversa que vale cada minuto
O que torna esta conversa especial não é apenas a história de Tom. É a forma como ele conta. Com humor, honestidade e uma gratidão genuína pelas pessoas que cruzaram seu caminho: o pai que guardou dinheiro do almoço para comprar um violino, o professor que estendeu o instrumento para um menino de 9 anos, e a amiga que indicou seu nome para uma banda de country numa tarde de sábado.
São esses detalhes que constroem um violinista. Não só o estudo, não só o talento. Mas as pessoas certas, nos momentos certos.
Ouça o episódio completo no YouTube: TOM BENEDUCCI - Podcast do Violino Didático #130