Uiler Moreira: violino, sertão e música sem barreiras
Uiler Moreira é daquelas pessoas que você encontra num festival de música e não esquece mais. Violinista nascido na Bahia, professor de projeto social, integrante de um quarteto de cordas que leva música clássica para o interior nordestino e, de quebra, o cara que ficou famoso por tocar descalço. Jean de Oliveira o recebeu no estúdio do Violino Didático, em Cotia, e a conversa foi tão rica quanto diversa.
Uiler mora em Conceição do Coité, cidade do interior da Bahia. É de lá que ele lidera a Orquestra Santo Antônio, o conjunto principal do Projeto Santo Antônio, um projeto social voltado à formação musical. É também de lá que ele se articula com os outros integrantes do Quarteto Mussurunga para manter o grupo ativo, mesmo à distância.
O Quarteto que nasceu na universidade
O Quarteto Mussurunga tem uma origem que muita gente vai achar incomum: ele surgiu numa aula de música de câmara na Universidade Federal da Bahia. Foi a professora Laura Jordão, violista, quem sugeriu que o grupo se tornasse fixo. O entrosamento durante o estudo de um quarteto de Beethoven foi tão bom que a ideia fez todo sentido.
O quarteto é formado por Uiler e André nos violinos, Laissa na viola e Letícia no violoncelo. Os quatro são amigos pessoais, não só colegas de música. A distância geográfica complica um pouco: André e Laissa moram em Salvador, enquanto Uiler e Letícia ficam em Coité. Mesmo assim, eles mantêm o grupo vivo.
A proposta de levar o quarteto para cidades do interior da Bahia veio de Letícia, que escreveu um edital com essa ideia. Em 2022, eles fizeram uma turnê por Reachão do Jacuí, Conceição do Coité, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Serrinha. A intenção era simples e bonita: levar música de câmara para quem normalmente não tem acesso a ela.
Música clássica não é para poucos
Uma das conversas mais interessantes do papo girou em torno de uma frase que a mãe de Uiler costumava dizer: que não tinha estudo suficiente para entender música clássica. Ele discorda, e explica bem o porquê.
Quando você assiste a um filme, não fica se perguntando se tem conhecimento para gostar daquilo. Você assiste e sente. Com música clássica, existe uma barreira invisível que faz as pessoas acharem que precisam de uma formação especial para ouvir. Mas não é assim. Você pode gostar ou não gostar, e as duas respostas são válidas.
O repertório da turnê do Mussurunga foi pensado para mostrar exatamente isso. O grupo tocou uma música de Elomar Figueira Melo, compositor baiano de Vitória da Conquista que mistura elementos da cultura clássica com a sonoridade do sertão. Tocaram também uma peça do compositor americano Charlton Singleton, escrita em 2019, que traz influências dos spirituals e do Jazz para dentro de um quarteto de cordas. Quatro minutos de música. Pequena para os padrões clássicos, enorme em conteúdo.
O recado que o quarteto quer deixar é claro: não existe uma barreira intransponível entre gêneros musicais. A sociedade é que impõe essa separação. Tocar violino não significa abrir mão do samba, do jazz ou de qualquer outra coisa.
Descalço por escolha
Um detalhe curioso que Jean trouxe logo de cara: Uiler é conhecido por tocar descalço com certa frequência. A origem disso tem data e lugar certos. Foi no Festival Ilumina, em 2020, que ele pisou num palco pela primeira vez sem sapatos. E o hábito ficou.
O que é um festival de música, de verdade
A conversa sobre festivais de música rendeu muito. Uiler explica que um festival é, na prática, um encontro de músicos de várias partes do Brasil e do mundo, que se reúnem para estudar com professores convidados e tocar numa orquestra específica. O modelo mais tradicional, como o Festival de Campos do Jordão, hoje na sua 52ª edição, funciona assim: ensaios de orquestra de manhã, masterclasses à tarde, música de câmara no final do dia e concerto à noite. A rotina é intensa. Segundo Uiler, na segunda semana de um festival de 30 dias, muita gente já não aguenta mais.
Mas existe um festival que foge completamente desse padrão: o Ilumina. Lá não há aulas. Os participantes simplesmente tocam, em formações de câmara, com artistas internacionais convidados. Uiler já participou quatro vezes e cada edição foi uma experiência diferente. Numa delas, tocou o Quinteto para Clarinete de Brahms com Matthew Hunt, primeiro clarinetista da Orquestra de Câmara de Bremen. Nessa mesma edição, teve a chance de tocar junto com a violinista Tai Murray. O aprendizado vem pela prática direta, não pela sala de aula.
O Ilumina acontece numa fazenda no interior de São Paulo, perto de Mococa. Sem palco convencional, sem sala de ensaio fixa. A informalidade é parte da proposta.
Festival é lugar de networking, não de solidão
Um dos pontos mais diretos da conversa veio quando Jean e Uiler falaram sobre o que um festival realmente oferece para quem está começando. A conclusão dos dois: festival não é lugar para ficar trancado no quarto estudando. É lugar para conhecer pessoas.
Foi no festival que Jean e Uiler se conheceram. E foi num festival que Uiler aprendeu, na prática, que tocar bem é o mínimo. O que garante que você seja chamado de volta, que entre numa orquestra, que receba um convite inesperado, é ser uma pessoa boa de conviver. Alguém que não dá trabalho, que se conecta, que está presente.
Se você quer estudar no exterior, festival é também o lugar para conversar com professores de fora ou com músicos que já percorreram esse caminho. A rede que se forma nesses encontros tem mais valor do que qualquer hora de estudo feita em isolamento.
Uiler Moreira é um exemplo vivo disso: violinista do interior da Bahia que, por meio de festivais, projetos sociais e um quarteto itinerante, foi construindo uma trajetória singular. Sem abrir mão das raízes, sem se fechar em nenhum gênero, sem sapatos quando a ocasião pede.
Ouça o episódio completo no YouTube: UILER MOREIRA - Podcast do Violino Didático #025