Vini Mendes: trajetória, orquestra e vocação no violino
Vini Mendes tem 29 anos, toca na Orquestra Sinfônica de Santos e mora na Baixada Santista. Simples assim, pelo menos na apresentação. Mas a trajetória que levou esse violinista até aqui está longe de ser simples ou linear.
Jean de Oliveira, do Violino Didático, tem uma categoria especial na cabeça para violinistas como Vini: os “violinistas Ronaldo Gaúcho”. São aqueles com trajetórias aleatórias, que chegam ao instrumento por caminhos tortos e fazem coisas completamente inesperadas com ele. Vini se encaixa perfeitamente nessa definição.
Velórios, divórcios e um noivo preso
Antes de qualquer conversa mais séria, Jean quis saber: qual foi o trabalho mais fora da caixinha que Vini já fez com o violino? A resposta não decepcionou.
Já tocou em velório, em Dia de Finados e, o mais inusitado de todos, numa festa de separação. Um casal com cerca de dez anos de casamento resolveu celebrar o fim da relação num restaurante em Praia Grande. Vini foi contratado achando que era uma renovação de votos. Só depois que percebeu que os votos não seriam renovados porque o objetivo era justamente o contrário.
Tem mais. Em outro casamento, Vini chegou ao local e o porteiro informou que o evento havia sido cancelado. O motivo: o noivo acabara de ser preso. Como o cachê já estava pago, Vini voltou para casa e aproveitou a tarde tranquilamente. Sem perguntas, sem envolvimento. Só uma tarde livre inesperada.
Um quadro profético e um professor Suzuki no condomínio
A história com o violino começou bem antes disso tudo, e de um jeito que parece roteiro de filme.
Os pais de Vini trabalhavam como gerentes de hotel no Guarujá. Antes mesmo de ele nascer, um amigo da família pintou um quadro com um violino e o deixou no hotel. Ninguém na família era músico. A mãe de Vini engravidou logo em seguida, e ele cresceu olhando para aquele quadro.
A coincidência foi além. No mesmo condomínio onde moravam passou a viver um professor japonês com formação em método Suzuki. A mãe de Vini começou a fazer aulas com ele ainda durante a gravidez, já avisando que teria um filho que também iria aprender. Jean destacou esse ponto como um insight valioso: se você quer criar um ambiente musical para seu filho, comece você mesmo a aprender. É exatamente o princípio Suzuki em ação.
Para quem não conhece, o método Suzuki parte da ideia de aprendizado pela imersão no ambiente, como acontece com a língua materna. A criança aprende porque está cercada daquilo. Hoje o método vai muito além do violino e é estudado até em cursos de pedagogia.
Igreja, teoria musical e o caminho torto da leitura
Vini começou a tocar violino aos três ou quatro anos e passou a se apresentar na igreja por volta dos nove ou dez. A congregação tinha uma tradição pedagógica baseada no método Bona, com solfejo, clave de sol, clave de fá e muita teoria antes de qualquer coisa prática.
O problema é que Vini havia aprendido a tocar pelo caminho inverso. Ele já executava todos os hinos, mas não conseguia acompanhar o processo teórico da congregação. Sabia tocar, mas não lia com fluência. O caminho prático veio primeiro, e encaixar a teoria depois não foi simples.
Ele reconhece o trabalho da congregação com generosidade. É um esforço genuíno de democratização do ensino do instrumento, e há muita gente tocando honestamente bem nesse contexto. Mas pondera que existem métodos mais eficientes hoje, e que muitas pessoas ficam pelo caminho por causa de uma abordagem pedagógica que já tinha mais de cem anos quando chegou ao Brasil.
O desvio pelo violoncelo
Poucos sabem, mas Vini chegou a se ver como violoncelista. Quando o professor Suzuki do condomínio foi embora e as aulas na igreja ficaram irregulares, ele dispersou do violino por um tempo. Numa das fases, entrou num projeto do Guri em São Vicente e decidiu aprender violoncelo.
A lógica foi direta: violino ele já sabia tocar, então por que não aprender algo diferente? Foi bem. Teve bons resultados. Um professor que dava aula tanto no Guri quanto na ULM o incentivou a fazer a prova de ingresso na universidade para violoncelo. Chegou a estudar com Kiril Bogatir, violoncelista que passou pela OSESP.
Mas a escola regular entrou em conflito com a agenda. O pai de Vini levava os estudos formais muito a sério, e não havia como conciliar tudo. O violoncelo ficou para trás, e o violino voltou a ser o centro.
Vocação versus talento: uma distinção importante
Um dos momentos mais reflexivos da conversa veio quando Jean perguntou sobre pessoas que nascem para a música. Vini fez uma distinção que vale guardar.
Talento é facilidade. Vocação é outra coisa. Vocação é a capacidade psicológica de aguentar aquela atividade por muito tempo, com ou sem facilidade. Há pessoas com enorme talento e zero vocação, que largam cedo. E há pessoas sem grande facilidade técnica inicial, mas com tanta vocação que vão conquistando espaço com o tempo.
O próprio Vini usou o personagem de Rocky Balboa como referência, em tom de brincadeira, mas o ponto é sério. Resiliência vale muito. O violino, especialmente, é um instrumento que coloca o músico frente a frente com seus próprios limites. Meses sem resultado aparente, frustração constante, a percepção clara de até onde vai a paciência de cada um. Tocar violino é, de certa forma, um exercício de autoconhecimento.
Morar na praia tocando em orquestra
Hoje Vini equilibra a vida na Orquestra Sinfônica de Santos com aulas particulares e trabalho com produção cultural. Vive em Santos com a esposa Talia, que apareceu brevemente durante a gravação. E, como ele mesmo disse, leva a vida bem na boa.
Jean brincou que morar na praia deve ser muito difícil. Vini concordou, com o mesmo tom irônico.
Quando o assunto virou a possibilidade de um ex-aluno seu deixar um emprego estável em TI para buscar uma vaga em orquestra, Vini foi honesto: tocar em orquestra é muito bom, mas não necessariamente é melhor do que um emprego bem remunerado em outro setor. A romantização da carreira musical tem limites reais. E ele sabe disso por experiência própria.
O que fica da conversa com Vini Mendes é a imagem de alguém que chegou à música por acaso, quase saiu dela algumas vezes, deu um desvio pelo violoncelo e acabou encontrando no violino o lugar onde queria estar. Sem grandes proclamações. Com bastante senso de humor.
Ouça o episódio completo no YouTube: VINI MENDES - Podcast do Violino Didático #018