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Vinícius Fachinetti: luteria, Itália e o mundo dos violinos

Podcast Violino Didático

Vinícius Fachinetti é o nome por trás de uma das histórias mais curiosas e inspiradoras do universo dos instrumentos de corda no Brasil. Lutier há 21 anos, ele é reconhecido como uma espécie de cola da categoria dos luthiers brasileiros, nas palavras do próprio Jean de Oliveira ao recebê-lo no estúdio em Cotia. A conversa foi longa, rica em detalhes técnicos e cheia de momentos bem-humorados.

Vinícius veio de Tatuí especialmente para essa conversa e chegou sem trânsito, com bom humor e uma quantidade enorme de histórias para contar. Ele usa tanto o termo “lutier”, do francês, quanto “liutaio”, do italiano, e explica que os dois se referem à mesma profissão: a construção, fabricação, reparo e ajuste de instrumentos de corda, com foco em violino, viola e violoncelo.

De projeto social no Espírito Santo ao atelier na Itália

A história de Vinícius com a música não começou em um berço de família musical. Pelo contrário: não havia nenhuma tradição artística em casa. Ele cresceu em uma família que o preparava para trabalhar na Vale do Rio Doce, como seus tios e avô. O caminho natural seria a mecânica.

Foi em um projeto social no Espírito Santo, o Instituto Preservar, criado pelo lutier Renato Casara e sua família, que tudo mudou. Vinícius estudava violino no instituto e, no seu recreio, frequentava o prédio do antigo Senai onde funcionava a escola de liuteria. Ele via violinos sendo construídos e a curiosidade foi crescendo.

“Será que eu consigo fazer isso?” foi a pergunta que ficou na cabeça dele. Naquele momento, sua habilidade manual era, nas próprias palavras dele, zero. Ele nem sabia fazer pipa. Mas a curiosidade sobre a anatomia do instrumento falou mais alto.

Hoje, além do atelier em Tatuí, Vinícius tem um espaço de trabalho na região de Pádova, na Itália, em parceria com o mesmo Renato Casara que o iniciou na liuteria. O atelier europeu existe há quase três anos e, segundo ele, tem funcionado muito bem. Sua família, incluindo esposa e filhos, vive na Itália. Ele é quem vem ao Brasil periodicamente.

A burocracia italiana que ninguém conta

Ter um atelier na Itália parece romântico e, em muitos aspectos, é mesmo. Mas Vinícius não esconde os desafios. A burocracia italiana é muito mais pesada do que a brasileira, segundo ele. Impostos chegam antecipadamente, como se fossem cobrados sobre um lucro que ainda nem existiu.

“É como lucro presumido para todo mundo”, ele explicou. A gestão de uma pequena empresa na Europa exige um aprendizado que nenhuma escola de liuteria ensina. Vinícius diz que está aprendendo na marra, quebrando a cabeça, e que adoraria se a vida fosse só a parte artística.

Apesar disso, ele reconhece o valor do ambiente europeu para a profissão. Na Itália, a arte manual é muito valorizada. A liuteria tem raízes profundas no país e faz parte da identidade cultural italiana. Lá, quando ele diz que é liutaio, as pessoas sabem exatamente o que é. No Brasil, especialmente no Espírito Santo onde cresceu, quando falava em liuteria, as pessoas achavam que ele trabalhava em uma casa lotérica.

Cremona, Guarneri e a possibilidade de um Stradivari no guarda-roupa

Um dos momentos mais animados da conversa foi quando o assunto virou o universo dos grandes violinos italianos. Vinícius contou que, nos ateliers onde trabalha com colegas na Itália, é completamente normal que alguém chegue com um Guarneri ou um Stradivari para avaliação.

Ele acredita que sim, é possível que alguém ainda encontre um violino histórico em cima de um guarda-roupa na Europa. No Brasil, a situação é diferente: muitos instrumentos chegam com etiquetas escritas “Stradivarius”, mas são, na verdade, cópias alemãs de fábrica que foram produzidas em massa com esse nome.

O problema, segundo Vinícius, é que quem não tem conhecimento acaba acreditando que o instrumento é original. E quando um especialista explica que não é, a pessoa desconfia que ele quer comprar barato para revender caro. O conhecimento, portanto, protege o músico.

Pedagogia da liuteria para músicos: tirar medos e desfazer mitos

Esse tema levou Vinícius a falar de um projeto que ele considera muito importante: cursos de liuteria voltados especificamente para músicos. Não para formar lutiers, mas para que os instrumentistas entendam melhor o objeto que carregam nas mãos todos os dias.

Ele já deu aulas, palestras e seminários em festivais com esse foco. Recentemente, ministrou um curso em uma escola na Itália para músicos de orquestra. Em um determinado momento, abriu um violino na frente de todos. A reação foi de susto generalizado.

“Todo mundo incrédulo”, ele contou, rindo. Para Vinícius, aquilo é completamente rotineiro. Para os músicos presentes, parecia um sacrilégio.

Essa é exatamente a mentalidade que ele quer transformar. O violino é frágil, sim, mas também é muito resistente. Não é tão delicado quanto parece. Nos cursos, ele ensina coisas básicas como trocar cordas e entender a anatomia do instrumento. Há músicos experientes que nunca trocaram uma corda na vida e levam o violino ao atelier para isso.

Ele também mencionou que já viu cravelhas quebradas porque o tio de alguém, em um churrasco, resolveu usar um alicate no instrumento. Conhecimento básico teria evitado isso.

O trabalho de restauro e as referências femininas na liuteria

Outro tema que surgiu com entusiasmo foi a participação das mulheres na liuteria. Vinícius acredita que há muito espaço e que falta incentivo. Ele ressalta que o trabalho de um lutier não é bruto: exige delicadeza, refinamento e sensibilidade. Qualidades que, segundo ele, muitas de suas alunas demonstraram em alto nível.

Uma referência que ele citou com admiração foi a restauradora Iris Carr, que atua em Londres. Ele a descreveu como uma artista que faz milagres. Recomendou fortemente que quem tiver interesse em restauro de instrumentos acompanhe o trabalho dela nas redes sociais.

A conversa com Vinícius Fachinetti mostrou que a liuteria vai muito além de serrar madeira e aplicar verniz. É uma profissão com história, técnica, cultura e uma dimensão pedagógica que ainda está sendo construída no Brasil.

Ouça o episódio completo no YouTube: VINICIUS FACHINETTI - Podcast do Violino Didático #054

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