Wallas Pena: de violista a maestro assistente de João Carlos Martins
Wallas Pena não planejou virar maestro. Ele tocava viola na Filarmônica Sesi São Paulo quando o maestro João Carlos Martins chegou num ensaio de sábado pedindo indicações para um assistente. Uma colega brincou: “Coloca o Wallas”. Ele nem piscou: “Rejo, Maestro. Claro.”
Na segunda-feira seguinte, ele já estava diante da orquestra regendo a Sinfonia nº 3 de Mozart completa. E no mesmo mês, estreou na frente do público. É esse tipo de trajetória que faz a conversa com Jean de Oliveira valer cada minuto.
Do cavaquinho ao violino, do violino à viola
Wallas cresceu em Osasco, São Paulo, numa família cercada de música popular. Seu pai toca violão e cavaquinho. Os tios também. E ele próprio, bem pequenininho, já integrava um grupo com os primos, tocando cavaquinho e fazendo samba.
O violino veio depois, pela igreja. Foram cerca de dois anos tocando por lá, sem nada muito formal. Até que ele viu um amigo com um instrumento diferente e desconhecido: uma viola. Gostou da corda dó na hora. Dois meses depois, já havia trocado de instrumento.
A mudança foi natural, mas a consciência do que estava construindo veio aos poucos. Wallas estudou no Conservatório Vila Lobos de Osasco, passou pela antiga ULM (hoje EMSP), fez aulas em grupo com Enaldo e Nelson Rios, e foi virando profissional quase sem perceber. Ele é o primeiro da família a tocar em orquestra.
A Estadual Zinha e o primeiro dinheiro
Um dos marcos que ele aponta como decisivo foi entrar na Orquestra Estadual Jovem, na época dirigida por João Maurício. Foi ali que começou a ganhar seus primeiros cachês como músico.
Não era muito, mas para um adolescente de origem simples, já era significativo. Num certo momento, ele tocava em duas orquestras jovens ao mesmo tempo, uma em Guarulhos e outra em Atibaia. Quando somava as bolsas dos dois lugares, ganhava mais do que os adultos da sua família.
Foi aí que a virada aconteceu de verdade. Ele olhou para a música de outro jeito e pensou: tem dinheiro aqui. Tem carreira aqui.
A primeira regência: Orquestra Jovem das Américas
Antes de se tornar maestro assistente, Wallas já tinha uma história inusitada guardada. Ele participou da primeira edição da Orquestra Jovem das Américas, projeto que reuniu jovens músicos de vários países do continente. Naquela edição, Yo-Yo Ma era o solista e Gustavo Dudamel estava como regente.
O projeto tinha uma tradição: em cada país visitado, um músico local regia o Hino Nacional. Wallas foi o escolhido para reger o hino em São Paulo. Simples assim, ele levantou a mão quando perguntaram quem queria fazer, e foi para o pódio.
Ele conta que fez um ensaio antes do concerto, já com bastante convicção, pedindo para a orquestra refazer entradas que não ficaram juntas. “Já cheio de marra”, como ele mesmo brincou com Jean. A experiência plantou uma semente. Ele gostou daquele lugar.
Virar maestro sem ter planejado
A regência ficou guardada por anos como um interesse latente. Durante a faculdade de viola, Wallas chegou a cursar alguns semestres de regência, mas não foi em frente. O mercado parecia pequeno demais: poucas orquestras, poucas oportunidades.
Até aquele sábado de ensaio, quando João Carlos Martins fez a pergunta e uma colega indicou seu nome de brincadeira. Wallas aceitou sem hesitar, foi estudar a sinfonia no fim de semana e apareceu na segunda pronto para reger. O maestro gostou. E daí em diante, a história seguiu.
Hoje, com mais de dois anos como maestro assistente da Filarmônica Sesi São Paulo, Wallas reflete sobre o que a posição muda na prática. A principal diferença, segundo ele, não é técnica. É relacional.
Do outro lado da moeda
Ser colega de naipe é uma coisa. Ser o maestro dos mesmos colegas é outra. Wallas descreve essa transição com muita honestidade: há uma leve tensão no ar, algo que muda na dinâmica, mesmo com uma orquestra tão generosa quanto a Filarmônica Sesi.
Ele também entende agora o que os maestros sentiam nas passagens de som, nas demandas de ensaio, nas exigências de tempo. Coisas que, como músico, ele achava desnecessárias. Como maestro, ele percebeu que representar uma orquestra, um projeto e um nome como o de João Carlos Martins exige garantias. E garantias demandam tempo.
“A culpa é do maestro ou do gerente”, ele compara, com precisão. Cada detalhe que dá errado no palco passa pela sua responsabilidade.
Renatinho Pereira e o legado familiar
Um detalhe que aparece na conversa com Jean é o nome de Renatinho Pereira, um grande violinista que transita com facilidade entre o popular e o erudito. Segundo Wallas, Renatinho diz que começou a tocar por influência dele.
Wallas sorri com a responsabilidade. É a mesma responsabilidade que ele carrega ao falar da própria origem: filho de músico de cavaquinho, neto de um ambiente de samba, que um dia viu uma viola e decidiu que queria aquilo para a vida.
A trajetória de Wallas Pena é exatamente o tipo de história que o Violino Didático gosta de contar: a de alguém que não tinha o caminho pronto, mas foi fazendo o caminho ao caminhar.
Ouça o episódio completo no YouTube: WALLAS PENA - Podcast do Violino Didático #114