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Wellington Rebouças: violino, vivência e recomeço

Podcast Violino Didático

Wellington Rebouças é daquelas pessoas que fazem os outros violinistas sorrirem. Não é pouca coisa: entre músicos de orquestra, a simpatia genuína é rara. Jean de Oliveira o apresentou, sem exagero, como “o violinista mais querido entre os violinistas”. E ao longo da conversa, ficou fácil entender por quê.

Atualmente concertino da Orquestra do Teatro Municipal de São Paulo, Wellington também é professor do Instituto Baccarelli e diretor artístico do Instituto Luzes da Ribalta, projeto da sua própria família em São José dos Campos. Uma trajetória construída entre orquestra, sala de aula e laços familiares muito fortes.

A família que formou um quarteto

A história de Wellington com a música começa pelo pai, Deusdete, que aprendeu canto no Souza Lima antes de casar e montar família. Quando os filhos cresceram, a decisão foi clara: todos aprenderiam música.

O irmão mais velho foi o primeiro a ir ao conservatório, a Fundação Criança Ricardo em São José dos Campos. Queria cello, como o pai, mas o instrumento era grande demais para o tamanho dele. Acabou na viola. E Wellington, ao chegar, fez um raciocínio simples: já tem cello, já tem viola, falta um violino nessa família. Pronto, estava definido.

A irmã caçula completou o quarteto. Por anos, a família Rebouças tocou junta em casamentos e eventos. Hoje cada um mora numa cidade diferente, mas o legado continua vivo: o Instituto Luzes da Ribalta segue crescendo em São José dos Campos, com alunos que já ingressaram na EMESP Tom Jobim e estudam com Elisa Fukuda.

Técnica que vira fim, não meio

Wellington admite que, nos primeiros anos, era completamente obcecado por métodos. Não queria saber de repertório: queria Sevcik, queria estudos, queria escala. Tanto que chegou a terminar o Sevcik 8 inteiro, algo que a professora disse que ninguém antes tinha feito sem estudos de peças junto.

O clique veio no palco. Nas performances, percebeu que acionar o lado racional durante a execução só piorava as coisas. O nervosismo aumentava, a autocrítica disparava e a música perdia o sentido. Quando começou a trabalhar o lado emocional do repertório, tudo mudou: o nervosismo diminuiu, a mensagem chegou ao público.

Ele cita Maxim Vengerov como referência central nessa virada. Ainda na adolescência, um amigo lhe emprestou uma fita VHS com Vengerov tocando o Concerto de Sibelius. Assistiu dez vezes no mesmo dia. Ali começou a entender que música conta histórias, e que essas histórias precisam ser vividas, não apenas executadas.

Paternidade e o coração fora do peito

O nascimento da filha foi, segundo Wellington, a maior mudança dos últimos anos. Ele descreveu a sensação de forma simples e direta: é como se o coração estivesse ali na sua frente. Por cerca de um mês, chorou todo dia ao olhar para ela.

Para um músico, essa intensidade emocional tem consequências concretas. Wellington reconhece que os dedos podem estar um pouco menos ágeis do que antes, mas a musicalidade está em outro patamar. A vivência, o amor e a generosidade que a paternidade desperta passam diretamente para o instrumento.

Ele faz uma analogia bonita com o Concerto nº 5 de Mozart: para quem já se casou, o Adagio do segundo movimento soa como uma cerimônia, com celebrante, votos e festa, depois vem a briga, claro. Quem viveu isso de verdade interpreta de forma completamente diferente de quem apenas executou as notas.

A distonia e o recomeço pelo outro lado

Em um momento de rara abertura, Wellington revelou algo que ainda não havia contado publicamente: está reaprendendo a tocar violino do lado oposto ao convencional. O motivo é a distonia focal, condição neurológica que impede o controle motor fino e inviabilizou a forma tradicional de tocar.

A distonia focal é conhecida e temida entre músicos. Para Wellington, a resposta foi não desistir, mas reinventar. Ele está aprendendo a segurar o arco e o instrumento de forma espelhada, e os resultados estão aparecendo.

A primeira notícia pública sobre esse processo veio justamente na conversa com Jean: Wellington recebeu um convite para fazer um recital em um festival na Alemanha, com o organizador ciente de que ele toca do outro lado. O repertório está sendo definido, a data é próxima, e a expectativa é real. Quem pensou que nunca mais tocaria violino está sendo surpreendido pelo próprio caminho.

O violinista que a EMESP conhecia

Jean contou que a primeira memória que tem de Wellington é de uma sala de estudo da EMESP. Ele estava praticando quando Wellington entrou, pegou o estojo, olhou e saiu. Uma cena rápida, mas que ficou gravada, porque Wellington já era uma referência dentro da escola.

A fama era merecida: Wellington tocava repertório virtuosístico com um som que, segundo Jean, “preenchia a sala com muita facilidade”. Liderava grupos de câmara, tocava em quintetos e quartetos, e era aquele músico que os outros observavam de longe com admiração.

Essa trajetória na EMESP foi o ponto de partida para tudo que veio depois: o Municipal, o Baccarelli, as masterclasses, o instituto da família.

Uma conversa sobre raízes e continuidade

O que torna a história de Wellington tão interessante é a linha que conecta tudo: um pai que acreditou na música, filhos que levaram isso adiante, alunos que hoje carregam o mesmo legado. E um músico que, mesmo diante de um obstáculo que tirou muita gente do palco, escolheu continuar, de outro ângulo, com o mesmo amor.

A conversa com Jean de Oliveira foi uma dessas trocas que mostram o violino muito além das notas: como instrumento de vida, de família e de reinvenção.

Ouça o episódio completo no YouTube: WELLINGTON REBOUÇAS - Podcast do Violino Didático #069

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